sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

La Quiaca - Meio do Nada - 17º dia - 19/01

---------------------------------17º dia - 19/02---------------------------------- ///Apesar de estarmos em um quarto só nosso a noite não foi das melhores, pois começamos a sentir os efeitos da altitude. Para mim foi um pequeno mal estar, mas para Anne foi pior. Com isso acordamos cansado, o que não era nada bom para o longo dia que iriamos enfrentar. ///Partimos cedo para a fronteira e no caminho pegamos nossas passagens de trem que foram compradas em outro albergue da cidade (Copabana Hostel). Devo admitir que quando soube que deveríamos passar por uma ponte sobre um rio para chegar à Bolívia, visualizei algo mais ou menos assim:
///E fiquei ligeiramente surpreso em ver que essa era a ponte e o rio que cruzaríamos:
///Assim que chegamos ao primeiro posto de controle percebemos como nossa vida ali seria difícil. Havia uma longa fila onde deveríamos carimbar nossa saída da Argentina e depois uma fila ainda maior onde carimbaríamos nossa entrada na Bolívia.
///Até agora não tivemos nenhum problema em nenhuma fronteira, mas a partir de agora tudo isso iria mudar. Não que, nesse momento, tenhamos tido algum problema de ordem legal, mas assim que chegou a nossa vez de carimbar nossos documentos, o milico fechou a janelinha e pediu para aguardamos. Em resposta à essa grosseria nós... aguardamos, lógico. ///Enquanto esperávamos observei a movimentação característica do local. No início da viagem fiz uma pequena reflexão a respeito do que são as fronteiras em nosso imaginário, mas agora pude vivenciar esse fenômeno essa experiência faço questão de voltar mais uma vez à esse ponto. Até agora tínhamos passado por duas fronteiras: Do Brasil para o Uruguai pelo ar e do Uruguai para a Argentina pela água. É a primeira vez que estamos atravessando uma fronteira terrestre. Se para muitas pessoas (para nós mesmos em muitos momentos) é difícil de separar a idéia de Estado e Nação, a experiência prática em um local de fronteira seria importantíssimo para entender a artificialidade das demarcações fronteirísticas. ///Toda aquela burocracia, aquele policiamento, aqueles símbolos eram completamente artificiais para a realidade prática da região. Guardas, bandeiras, papeis, portões e cancelas separavam um mesmo povo que transitava por ali como se nada daquilo existisse. Todos têm a mesma língua, o mesmo sotaque, uma cultura e uma tradição similar dentro de sua própria dinâmica não homogênea e retilínea. Centenas moram em um país e trabalham em outro, ou moram em um país e tem família em outro. Isso pode nos suar surpreendente, mas muitos desses trabalham mais perto do que aqueles que moram em Niterói e trabalham no Rio.
///Em um determinado momento eu estava olhando para o pequeno rio quase seco que separava esses dois Estados e vi uma pastora de ovelhas caminhando com suas belas ovelhinhas e sem saber zombando o absurdo que é aquela linha imaginária. De que país ela é? Não importa, provavelmente nem ela mesma se lembra, mas se você pedir para ela descrever a região onde ela e sua família moram e morava ela saberá muito bem.
///Depois que finalmente fomos atendidos, fomos para a segunda e maior fila sobre a ponte. Nesse caminho vi outra coisa que me chamou a atenção. Um estúpido milico abordou uma senhora descendente indígena, com trancinhas e roupas coloridas, claramente da região e de forma grosseira verificou o conteúdo de sua bolsa mandando-a voltar de onde veio. A velhinha simplesmente falou “por favor!”, mas voltou sem questionar muito. Enquanto isso, eu, Anne e Kiko atravessávamos com o que poderia ser dez quilos de armamentos pesados e munição e mais alguns quilos de craque, sem que ninguém sequer pedisse para olhar nossas mochilas. O que impediu que aquela senhora local passasse e o que nos permitiu passar não foi o conteúdo de nossa bagagem (até porque duvido que ela estivesse carregando alguma coisa ilegal) e sim a lógica preconceituosa que permeia as autoridades de todos os lugares. ///Lembram que eu disse que La Quiaca é uma cidade fria por estar à quase 3000 metros de altitude? Imaginamos que Villazón, na Bolívia, também fosse a mesma coisa, pois as duas cidades estão muito próximas uma da outra. Até pode ser verdade isso, mas na fronteira, especificamente sobre a ponte, aquilo é um inferno. Sob o sol forte e arrastando duas toneladas de bagagens esperamos por quase três horas até que chegasse nossa vez de sermos atendidos. E o que eu disse sobre nossa sorte na fronteira? Quando Anne se encaminhou para o atendimento, o cara se levantou e disse que havia acabado o turno dele. Péssima idéia. Anne reclamou na hora e só não fez um escândalo corretamente, por que outro funcionário percebeu o perigo e nos atendeu prontamente. ///Cansados e com fome chagamos finalmente à Bolívia e pegamos um taxi para a estação ferroviária de Villazón. A cidade parecia mais desorganizada do que as que estávamos acostumados. No trânsito louco, eu nem reparei se haviam sinais de trânsito e se tivessem eles eram prontamente ignorados. Andar ali me deu saudade de visitar minha família em Campo Grande, onde o trânsito é bem parecido (Em Niterói não dá para ficar tão caótico porque fica tudo parado). ///A espera na estação foi tranquila, apesar de nosso extremo cansaço. Depois de alguns minutos embarcamos para o que seria nossa primeira viagem longa de trem da nossa vida: previsão de 15 horas. O trem era muito mais confortável do que imaginávamos e para quem pega Central-Japeri com alguma frequência, como eu, aquilo parecia fichinha.
///O cenário estonteante dos Andes e como nos surpreende e maravilha já foi bem descrito na postagem anterior. Mas mesmo não sendo a nossa primeira vez diante de dessa paisagem nosso admiração não diminuiu, até porque quando se atravessa os Andes, nada parece repetitivo.
///Passamos por mais um monte de rios secos, o que fica claro que o tempo seco castigava a região, mas não só. Anne começou a ter forte problema com a falta de umidade e mesmo molhando o nariz com regularidade, a secura era um grande incomodo. Como a fome apertou, fui desbravar o trem em busca de algo pra comer. Me sentia em um filme de ação quando passava de um vagão para outro e via a paisagem passando em velocidade.
///Finalmente cheguei ao “Vagón Comerdor”, conhecido por nós como Vagão Restaurante. Disposto a comprar um sanduíche para mim e para a Anne fiquei de queixo caído quando vi que, de fato, se tratava de um restaurante. Surpreendido perguntei umas três vezes para o garçom se realmente aquilo era aquilo mesmo. Mesas de quatro, cardápio e comida de verdade. Corri de volta para nossos lugares e ao dar a notícia Kiko e Anne se levantaram num pulo e me seguiram para lá.
///Antes mesmo de comermos já estávamos felizes novamente. Aquela descoberta elevou o moral da tropa e voltamos a apreciar os Andes que passavam por nossas janelas revelando suas estonteantes paisagens.
///Depois de ficarmos horas sem comer e se ver diante de um belo prato bem servido de comida, ninguém consegue se segurar. Nós três comemos como se nunca tivéssemos feito isso na vida. Kiko mora numa república que quando aparece um rato, ao invés de susto, eles preparam um churrasco. Eu como tudo que me põem na frente, mas a Anne, mesmo comendo bem normalmente, não aguentou a própria voracidade com que ela atacou a comida e ficou enjoada. No auge do seu enjôo ela correu para o banheiro, mas quando viu que no final da privada havia apenas um buraco onde se via as pedrinhas e graminhas passando, ela desistiu (Já eu adorei fazer xixi ali). ///Pela janela algo interessante chamou nossa atenção. Com regularidade passavam casas de barro incrustadas nas montanhas e isoladas de tudo. A diferença entre as que estavam habitadas e as que não estavam eram, algumas vezes, imperceptíveis e certamente ali não havia qualquer tipo de serviço básico. De quando em quando também passávamos por cemitérios igualmente de barro. Eram até bonitos dentro daquele contexto.
///Também notamos tufos brancos que por alguns segundos pensamos ser neve. Depois me toquei (e confirmei olhando no mapa) que aquilo era sal. Montinhos de sal indicavam que estávamos passando ao lado do belíssimo deserto de Sal ou Salar de Uyuni. Infelizmente, não estava em nossa programação visitar esse espetáculo da natureza, mas foi interessante a experiência de passar tão perto dele e ver seus efeitos na região ao redor. ///No final da tarde paramos em Tupiza para esticar as pernas e pegar alguns passageiros. Infelizmente deu não só para esticar as pernas, como para ir ao banheiro e se quiséssemos dar uma volta na cidade também teria dado tempo. O trem havia enguiçado e ficou uma hora parado em manutenção antes de finalmente partir.
///Apesar do vagão ser mais confortável do que os trens da Supervia (o que não é difícil), dormir não era algo fácil de se fazer. Além da poltrona não que não era grande coisa, o trem parou várias vezes no meio do nada por motivos não explicados. A falta de informação nos deixava tensos e isso não contribuiu para uma noite de descanso. Em uma dessas paradas longas e aleatórias, onde uma mulher estava gritando do lado de fora, o Kiko se encontrava no Vagão Restaurante, com a janela aberta e perto de vários funcionários. Assim que ele voltou, eu perguntei o que havia acontecido, mas ele nem sequer notou que o trem havia parado... Não me surpreendi, apesar de ter ficado frustrado. ///Então finalmente em algum momento, de algum lugar entre Tupiza e Oruro, eu cochilei.

Um comentário:

  1. Muito bom! Seus comentários sobre a artificialidade das fronteiras legais em confronto com a realidade sócio-cultural, são ótimos. O anarquista Kiko deve ter saído revigorado e, mais convicto do que nunca, quanto aos malefícios do estado. A foto da camponesa e seu rebanho de ovelhas atravessando a fronteira, indiferente aos trâmites legais, é impagável.

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