terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Buenos Aires - 11º dia - 13/01
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///Viajar com um dos melhores amigos e a namorada e conhecer lugares e culturas novas não poderia ser algo que eu mais desejasse. Não poderia querer estar em outro lugar. Mas ainda assim algo me perturbava. Nos momentos de sono e de silêncio pensativo (no banheiro principalmente) não conseguia tirar a imagem daquele pobre infeliz uruguaio, sem amor no coração, que gritou o nome daquele-time-que-não-deve-ser-nomeado e ainda cantou o hino. Anne jamais me deixaria esquecer esse evento lastimável e nada eu poderia fazer para esquecê-lo. Não até hoje...
///Nosso quarto no albergue era o único eu ficava em frente à recepção. No dia 13 de janeiro de 2012, décimo primeiro dia de viagem e terceiro dia em Buenos Aires eu acordo, saio do quarto e tenho o melhor “bom dia” que poderia ter. Um dos administradores desse belíssimo albergue, um autentico argentino com seus mullets volumosos, vestia um maravilhoso manto sagrado rubro-negro. Minha admiração pela Argentina cresceu enormemente. De fato este é um povo evoluído (muito mais que aqueles uruguaios cruz maltinos).
///Se alguém duvida que ele fosse de fato flamenguista, essa duvida seria sanada pela reação de nosso companheiro argentino ao ver Anne com a camisa do Vasco: “Flamengo el más grande! Dale um besito en la camisa!”, o cara zoou de tal forma a Anne que faria o André ficar com inveja. (Anne: “Isso é mentira... O cara era legal, o André é insuportável.”)
///O futebol é mágico e isso ficou comprovado com mais esse evento. Assim como em Montevideo, quando o vascaíno paraguaio, digo... uruguaio gritou: “Vasco” e nós estávamos indo para o Centenário, hoje é o dia de irmos para La Bombonera!
///Isso mesmo. Em um esforço para compensarmos a noite anterior pequeno burguesa, hoje iremos para o bairro operário mais charmoso da América do Sul: La Boca. No início do século XX os operários do bairro criaram o time de futebol Boca Juniors. Antes que pudessem construir seu estádio tiveram que enfrentar seu outro grande time fundado em Buenos Aires e que desejava construir seu estádio nessa zona central: o River Plate. Esse enfrentamento se daria em campo, dando início ao primeiro super clássico Boca X River. A vitória sobre o maior rival permitiu ao Boca construir seu estádio bem ali, enquanto o River teve que se refugiar para além dos Bosques de Palermo, vindo a se tornar o time da elite porteña, os millonarios.
///A experiência de ir para La Boca não poderia ter sido tão autêntica como a nossa. Antes do almoço fomos até o ponto para esperar o ônibus que nos levaria até o famoso bairro. Por quase quarenta minutos esperamos o transporte que não chegava, com direito a ônibus passando direto sem explicação clara. É... ficou evidente pelo problema com o transporte que estávamos indo para o bairro pobre.
///Finalmente pegamos um ônibus cheio. Diferente dos ônibus charmosamente velhos que nos levavam pelas áreas nobres da cidade, esse era só velho mesmo. A cada parada que o motorista fazia sem muita paciência, os passageiros gritavam o equivalente em espanhol ao “Oh motor! Nego ta descendo ainda!”. Me senti indo ver minha família em Campo Grande. Foi maravilhoso.
///Descemos no famoso Caminito, que é uma rua que virou uma sub região em La Boca. Essa é região turística do bairro. Lojas caras, como a tradicional Alfajor Havana, estrangeiros por toda parte e um monte de apresentações populares voltadas para os turistas como: tango e até batuques brasileiros. Ainda assim, essa forma de entretenimento turístico nos agradou mais do que a maioria dos demais por seu colorido e por seu som.
///Andamos pelas ruas coloridas. No início do sec. XX os operários do porto usavam as tintas que sobravam da pintura dos navios para pintarem suas próprias casas o que deu ao bairro o tradicional colorido. Também são constantes homenagens em murais e monumentos aos operários que ajudaram a construir o bairro.
///Caminhando em direção a La Bombonera também aumentam as já constantes referências futebolísticas principalmente ao Boca Juniors, claro, e ao Maradona. É bonito ver uma autêntica ligação entre classes populares e futebol num momento em que o esporte está tão absorvido pela lógica mercadológica e elitista.
///Andamos pelas ruas estreitas e resolvemos almoçar antes de visitarmos o estádio. Tínhamos duas opções: almoçarmos no circuito turístico comendo caro e sendo servidos por garçons pagos para fingirem serem fanáticos torcedores do Boca, ou procurar um boteco pelo bairro.
///Não preciso dizer para onde fomos. A uma quadra do estádio comemos num bar/restaurante onde era possível visualizar os torcedores que não conseguiram ingresso para o jogo, assistindo a partida enquanto bebem uma Quilmes, Mas nesse dia esses torcedores estavam apenas jantando como nós. Os cartazes espalhados pela parede falavam em sua maioria do maior rival River. A zoação mais comum agora era referente à recente queda dos millonarios à série B, o que me deixou com grande empatia em relação aos torcedores do Boca.
///Após o agradável almoço fomos finalmente ao caldeirão do poderoso Boca Juniors. O temível lar de um dos times mais fortes da América que é capaz de cozinhar seus adversários vivos quando eles se veem diante da fanática torcida boquense a poucos metros de suas orelhas.
///A primeira vista, La Bombonera parece um prédio alto para os padrões locais, todo pintado de azul e amarelo. Incrustrado no meio do bairro de ruas pequenas, o estádio é maravilhosamente mal projetado em termos de infraestrutura externa, diferente do Centenário de Montevideo, localizado a beira de uma estrada, com largas vias em volta e um bom estacionamento. Isso se dá ao fato do estádio ter sido erguido pelos operários torcedores do Boca no início do século passado.
///Ao redor da arena tudo é azul e amarelo e as referências em murais aos operários do bairro, misturando com a paixão ao futebol o que deixa a visita à La Boca ainda mais incrível.
///A entrada no estádio é pelo museu “boquense”. Kiko decidiu que não valia a pena para seus interesses pessoais entrar nesse templo do futebol e preferiu vagar sozinho e admirar o bairro operário. Enquanto isso eu e Anne entramos já boquiabertos nesse espaço. Na lógica do futebol moderno o clube precisa arrecadar muita grana para manter-se na elite. Não estou defendendo essa lógica, mas ficou claro com nossa visita à casa do Boca Juniors, como a maioria dos grandes times brasileiros não conseguem fazer isso. Não conseguem usar o potencial que suas imensas torcidas têm para levantar capital e seus dirigentes se preocupam mais com poder pessoal e colocar dinheiro no próprio bolso.
O museu é belíssimo e muito emocionante. Mas o mais interessante foi quando nós estávamos andando tranquilos e vimos um chamado familiar: “Renan! Anne! Qué hacen por a cá?”. Queríamos continuar a visita, mas eles insistiram em tirar uma foto conosco, então aí está como prometemos Maradona e Messi, depois a gente se fala melhor:
Bom... Algumas más línguas diriam que isso na verdade é uma fotomontagem que fazia parte de um pacote que pagamos e que teríamos o direito também de tirar uma foto no gramado segurando réplicas das taças da Copa Libertadores. Essa segunda parte é inteiramente verdade. Tivemos o belo prazer de pisar no gramado do estádio. Certamente não tivemos a menor ideia do que passa na cabeça de um jogador, por que quando esse caldeirão está lotado, deve ser difícil até respirar, mas ainda assim valeu a pena.
Obs: Para tirar foto com as Taças Libertadores é necessário ter pelo menos uma libertadores, portanto tricolores cariocas, botafoguenses, corinthianos e cia não poderão fazer isso com o risco de serem punidos como foi o caso desse pobre casal.
Por fim encerramos a visita com um bonito trailer da última conquista do Boca na Libertadores, em 2007 contra o Grêmio.
Terminada a visita reencontramos o Kiko e partimos de lá. Antes de pegarmos o ônibus vimos um belo mural na rua em comemoração aos 10 anos da revolta popular que estourou em Buenos Aires em janeiro de 2001. Depois disso, observando com mais atenção, vimos outras referências a essa data importante em outras partes da cidade.
Meu caminho e o da Anne novamente se separaria ao do Kiko. Nós dois precisávamos procurar algum posto de saúde para tentarmos tomar a vacina contra a Febre Amarela. Isso porque ouvimos um boato que para cruzar a fronteira com a Bolívia era preciso ter um comprovante de vacinação (mais para frente descobrimos que isso era uma exigência do governo brasileiro, portanto para passar da Argentina para a Bolívia não teríamos esse problema.)
Perambulamos pela cidade não conseguimos nos vacinar, mas tivemos a oportunidade de conhecer a impressionante faculdade de medicina de Buenos Aires. Em frente a esse prédio também havia uma bonita homenagem aos estudantes militantes que desapareceram na luta revolucionária contra a Ditadura Civil-Militar na década de 1970.
Também nos demos de presente um delicoso milkshake.
Passeamos mais uma vez de taxi e comprovei uma algo que já havia pensando desde o primeiro dia: andar de taxi em Buenos Aires não é só rápido e mais barato que no Rio, como também é uma atração turística a parte. Não só os motoristas fazem questão de conversar com os turistas, como também emitem opiniões políticas e sociais sobre tudo. Com essas conversas percebemos também o quanto o casal Kirchner elevou a figura do ex presidente Lula à quase um santo nas Américas. Muito conveniente para a própria elevação da imagem dos peronistas que possuem uma política relativamente parecida com o lulismo no Brasil. O taxista chegou a dizer com o Lula o Rio de Janeiro não tem mais violência urbana.
Já indo ao encontro do companheiro Kiko passamos novamente pelo obelisco da 9 de Julio e Alguns minutos depois finalmente o encontramos.
Aproveitando os quilômetros de distância que o separavam de qualquer voz racional ele foi fazer uma tatuagem... Menino travesso!
Assim que eu cheguei ao estúdio exclamei assustado: “Não era uma foice e um martelo?! Que decepção Kiko...” Bom... Fazer o que... Cada maluco com sua malucada. =P
(mas que ficou foda, ficou)
Terminada essa longa tarde de futebol e agulhadas voltamos ao albergue para e preparamos nosso delicioso jantar. Como todos aqui já sabem, após comer a Anne simplesmente desliga. Portanto a grande balada na agitada noite porteña iria ficar por conta minha e do Kiko.
Chegamos ao centro de Buenos Aires e sentamos em um bar onde o Kiko precisava usar o banheiro. Enquanto ele refletia a vida, eu tomei uma tradicional Quilmes que tinha gosto de Itaipava. Kiko voltou anunciando que foi alarme falso, andamos mais alguns minutos, compramos uma halls e voltamos para casa. Sim... Essa foi a agitada noite de Buenos Aires. Desconfiamos que nós não soubemos procurar, mas não sabíamos que seria tão difícil encontrar algo para fazer nessa grande cidade.
A noitada fail não apagou esse que foi um dos melhores dias de nossas Aventuras Latinas em Buenos Aires.
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