terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
La Paz - 19º dia - 21/01
-------------------------------21/01 – La Paz--------------------------------------
///Se tivéssemos combinado não teríamos conseguido acordar todos praticamente juntos às 8h da manhã. E se tivéssemos combinado, e combinamos, não teríamos acordado às 8h e sim às 18h! De tão exaustos que chegamos da viagem de 5 dias, nossa vontade era de ficar em nossa cápsula de energia, comumente conhecida como cama, por tempo indeterminado até que sentíssemos completamente regenerados. Mas nosso próprio corpo determinou que acordaríamos 8h. Muitas vezes quando se dorme demasiado casado (pelo menos comigo isso acontece) o sono não é tão revigorante como deveria ser. Além disso, o fato de não estarmos completamente acostumados com a altitude e às três horas de fuso horário em relação ao Brasil contribuíram para o despertar matutino.
///O frio que fazia naquela manhã de La Paz e o calor que fazia debaixo das cobertas, somado à preguiça constante pós acordada, que nos acompanhou por toda viagem fez com que o desafio de descer e comprar café da manhã fosse designado ao mais bravo guerreiro, eu! Bem agasalhado como mamãe gostaria que eu estivesse, desci com o objetivo de encontrar uma padaria, mas o que eu encontrei foi muito, muito melhor...
///Praticamente às portas de nosso hotel havia uma linda, tradicional e baratíssima feirinha popular onde você poderia encontrar tudo. Quando eu digo tudo eu não estou exagerando. O mais perto que poderíamos chegar de uma boa comparação seria com a Uruguaiana, mas mais barata e com senhoras descendentes indígenas, com roupas coloridas e fofas trancinhas.
///Eu me senti no paraíso. Empolgado eu não sabia nem para onde ir primeiro. Parei num lugar onde vendia leite, chocolate, pilha e escova de dente e perguntei onde poderia comprar pão. A senhora me indicou uma reta e de olhos brilhando e feliz como uma criança eu andei para lá encontrando de tudo, menos pão. Talvez eu até tivesse passado por pão, mas o colorido do lugar e a atmosfera gostosa podem muito bem ter nublado minha visão. Não importava. Nada importava. Eu só queria continuar andando por ali.
///Mais para frente perguntei novamente sobre pão e me indicaram um lugar diferente. Quando perguntei pela terceira vez e me indicaram um terceiro lugar diferente percebi que deveria prestar mais atenção para possíveis padarias ou algum lugar que vendesse pão. Essa foi uma tarefa dificílima, pois logo na frente outra senhora estendia pelo chão uma inestimável coleção de brinquedos de todos os tipos. De longe aquilo já havia chamado minha atenção, mas quando eu me aproximei eu praticamente caí de joelhos. Dezenas de bonecos do Senhor dos Anéis, muito bem feitos e o melhor: os preços variavam de cerca de 10 a 16 reais. Aragorn, Gandalf, Gimli, Éowyn, Saruman, orcs, todos lá a minha espera. Por mim levaria todos eles, quem precisa de pão quando você tem bonecos do Senhor dos Anéis? Mas por amor a minha vida, lembrei de Anne e decidi continuar meu caminho. Não que eu não tenha comprado, Aragorn e Gandalf iriam morar em Niterói agora.
///Achando que nada mais mágico poderia me acontecer continuei a andar até que finalmente o vi: A poucos metros de mim. Brilhando como um item a ser pego em um jogo de vídeo game, a solução de todos nossos problemas e a compra da permanência de Anne junto de nós (pois ela já pensava em voltar antes da hora): o FEIJÃO! Isso mesmo amigos. Mesmo agora, escrevendo à distância física e temporal do acontecimento não posso deixar de me emocionar com esse reencontro. Nosso preto favorito estava ali, na verdade sempre esteve apenas esperando que nós passássemos por ele. Durante toda viagem, essa seria nossa recompensa por termos chegado tão longe e nossa energia para avançarmos mais.
///Eu tive que me segurar para não perguntar: “Quanto você quer por isso?!?!?!” Oferecendo uma nota de cem dólares. Mas aquele produto raro era barato como tudo ali.
///Agora com bonecos do Senhor dos Anéis e feijão eu realmente não precisava mais de nada. Tudo a partir dali seria supérfluo, mas eu fui enviado numa missão e ainda precisava cumpri-la. Então, quase 40 minutos depois de minha partida eu voltei para o hotel triunfante como César voltava a Roma depois de suas inúmeras conquistas. A primeira coisa que fiz foi mostrar para o Kiko os bonecos e sua reação não poderia ter sido melhor. Ele pulou da cama com os olhos fixos neles, perguntando onde como e por que. Enquanto isso Anne olhava entediada para nosso momento nerd, mas isso não duraria muito. Minha teoria foi que ela sentiu o cheiro do feijão cru, por que de repente ela saltou com um grito de “Feijão!” e arrancou a sacola de minhas mãos para abraçar os saco de feijão e pular na cama com eles parecendo Tio Patinhas em suas montanhas de ouro.
///Quando eu contei as minhas aventuras na exploração daquele novo lugar e mostrei as especiarias que trouxe comigo, imediatamente os outros dois aventureiros se empolgaram de também descer.
///Assim fizemos logo após o delicioso café da manhã. Agora tínhamos outro objetivo: tornar viável o preparo de nosso feijão. Nossa primeira atitude em relação a isso foi conversar com a recepção do hotel e pedir para utilizarmos a cozinha. Surpreso com a proposta, mas prestativo ele liberou a cozinha para nós, mas alertou que não havia panelas que pudéssemos cozinhar. Por isso um de nossos objetivos na minha segunda ida à feira era comprar panelas.
///Kiko e Anne logo ficaram tão maravilhados quanto eu ao caminharem por aquele lugar. Parávamos em todas as barraquinhas para vermos roupas, comida, cereais, brinquedos, tintas e normalmente cada lugar tinha tudo isso, ou boa parte dessas coisas. Passeamos mais um pouco, compramos as panelas e voltamos para o lar.
///Desde La Quiaca tiramos nossas roupas de frio do fundo da mala. Chegando a La Paz foi a vez de tirarmos nossos remédios da mochila. Anne já vinha usando seu estoque pessoal, mas agora que o Kiko sentiu uma forte dor de barriga e passou a viver sua vida de rei, usamos nosso soro e outros remédios para o estômago.
///Com o anarquista debilitado, ficou a cabo meu e da Anne preparar o feijão e o resto do almoço. A cozinha era um pouco assustadora. Em contradição com o arrumadinho e limpo hotel, a cozinha era pequena, escura e suja. Só nosso desejo por feijão nos fez encarar aquela provação. É interessante conhecer o hotel por trás de sua fachada e não duvidaria que os grandes hotéis também fossem assim. Por exemplo, na parede da cozinha havia um ameaçador aviso aos funcionários ameaçando cortar salário caso não cumprissem com suas obrigações.
///Como eu disse essa cozinha era um pouco assustadora:
///Não experimentamos, mas desconfiamos que se tratava apenas de farinha...
/// Enquanto cozinhávamos meu antigo ódio à física voltou com toda a força. A 3.700 metros de altitude, a pressão atmosférica é bem menor. Nós não tínhamos panela de pressão e achamos que, mesmo demorando um pouco mais, o feijão sairia a tempo. Quatro horas depois, com todo o resto da comida já pronto, nosso feijão ainda estava duro, apesar de seu caldinho ser delicioso. Então tivemos que tomar uma decisão difícil: almoçaríamos (às 18h da noite) só com o caldo do feijão.
///Apesar do delicioso caldo, a frustração foi inevitável. A saga do feijão não seria vencida tão facilmente. Nosso desejo desesperado foi novamente adiado para uma data imprevista. O desapontamento foi tamanho que Anne comeu pouco.
///Relativamente frustrados, ainda cansados, alguns de nós debilitados e a friaca que fazia na noite de La Paz nos convenceu que não sairíamos para conhecer a noite de La Paz e tão cedo quanto acordamos, fomos dormir.
///Esse final de dia não apagou a magia do início. Continuei feliz e ansioso pelos demais dias em La Paz.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Meio do Nada - Oruro - La Paz - 18º dia - 20/01
18º dia - 20/02
///Eu estava na Estação das Barcas Rio-Niterói e a barca já estava saindo. Então eu corri e pulei, alcançando a embarcação a tempo. Lá dentro havia um homem e uma mulher que pareciam ser pessoas importantes das Barcas e começamos a conversar sobre a quantidade de tubarões na água, quando a mulher de repente falou com o cara: “Você liberou o trem sem ninguém dentro?!” “Sim”, respondeu ele nervoso. “Renan, nós vamos encostar a barca e você vai de carro avisar do trem.” “Mas eu não sei onde é.” Eu disse. “A gente vai te explicando.”
///Então quando a barca encostou-se à margem eu saltei e peguei um belo carro conversível amarelo. Eu não tenho carteiro, mas sempre que vou ao fliperama gosto de jogar com a marcha no manual, não deveria ser diferente. Acelerei e o motor roncou alto quando eu disparei pelas ruas largas de uma grande cidade americana até que... acordei.
///Ainda assustado com aquilo olhei para a TV do trem e vi um filme onde um carro disparava em alta velocidade. “Esse cara está indo avisar que tem um trem desgovernado?” eu perguntei à Anne. “Está sim”. Caramba! Eu tenho poder de entrar nos filmes! Mas quando eu disse isso para Anne ela respondeu algo como: “Poxa, legal”. Nem todos compreendem.
///Nem todos, mas o Kiko sabe bem como é. Quando algumas crianças gritaram no filme, ele acordou e perguntou se aquelas crianças tinham gritado antes, porque ele estava sonhando com isso. Será que não éramos nós com super poderes e sim o filme que era mágico?
///Despertei por completo e só então me toquei que siiim... Eles puseram um filme de trem desgovernado na viagem de trem. Quando no dia anterior eles puseram um filme de epidemia mundial que se espalha principalmente em transporte públicos, pensei que foi uma infeliz coincidência, mas agora percebi que não, era filha da putagem mesmo. Aqui está uma foto do funcionário responsável pelos filmes:
///Nada que eu escrevesse aqui poderia lhes dar a ideia de o quanto foi cansativa essa viagem. No máximo se eu escrevesse "trem" dez ml vezes e obrigasse vocês a lerem todas as palavras até o final, aí só assim vocês poderiam ter uma ideia vaga de como estávamos querendo pular fora daquele maldito transporte. Apesar disso enfim nos aproximávamos de Oruro. Ao nos aproximarmos passamos por um lindo lago com aguas tão paradas que se tornou um espelho, nos proporcionando essa incomum visão.
///Durante a viagem, nós decidimos que não ficaríamos em Oruro, pois não aguentávamos mais ficarmos algumas horas numa cidade e ter que viajar no dia seguinte. Queríamos chegar logo à La Paz e nos estabelecermos. Entrando em Oruro percebemos que essa foi a decisão mais acertada. Mesmo se tratando da capital de uma Província a cidade parecia abandonada. Abandonada não de pessoas, mas do poder público.
///Sentimos que estávamos conhecendo agora uma cidade boliviana. Villazón era muito pequena e por se tratar de fronteira tem aquela mistureba interessante. Mas Oruro não. Era uma capital e ficava apenas a três horas de La Paz. A pobreza generalizada também nos chamou a atenção. Não que não conhecêssemos pobreza em nossa própria terra, mas aqui era diferente em termos numéricos, “qualitativos” e espacial. Esta seria uma longa reflexão e mesmo assim não me sentiria capaz de fazê-la de forma satisfatória. É o tipo de coisa que você precisa ver para entender. Mesmo estando a menos de um dia na Bolívia, esta já se tornou uma experiência inestimável e que não poderia deixar de recomendar a todos.
///A rodoviária é uma atração à parte. Ao lado dos belos ônibus de turismo ficam várias pessoas te chamando para entrar e quase o pegando pela mão. Eles gritavam as cidades de destino parecendo nossas vãs passando pelo ponto de ônibus: “CentroBarcasNiterói!”. Aqui a maioria dos ônibus partiam para La Paz e o chamados das pessoas gritando para você comprar com eles soava quase musicalmente algo parecido com: “Lapassalapassalapassalapassa!”.
///Um morador local já havia nos dito que muitos acidentes de ônibus na Bolívia eram causados por motoristas bêbados. Assustador, mas até aí tudo bem. O que nos deixou realmente preocupados foi ver um aviso formal, em um quadro da rodoviária recomendando verificarmos a sobriedade do motorista. Então essa merda é séria!
///Outra coisa no mínimo curiosa que aconteceu foi quando fomos ao caixa eletrônico próximo da rodoviária. Desde o Uruguai já nos assustávamos com os caixas eletrônicos que engoliam nosso cartão inteiro e ficava com ele até o final da transação, mas esse aqui de Oruro se superou. O caixa não só engoliu o cartão, como fez isso devagarinho e fazendo um barulho de trituração desesperador. Não consegui sacar dinheiro, mas meu cartão ficou inteiro pelo menos. Em outro caixa eletrônico não foi com o cartão que fiquei preocupado, pois no caixa eletrônico havia uma mancha que se parecia muito com sangue. Ri da situação, até porque chorar não iria ajudar e saímos dali.
///Por fim, após alguns testes simples de sobriedade, entramos no ônibus e partimos para La Paz. Ainda em Oruro reparei diversas pequenas praças bonitas em meio a cidade desorganizada (Deve ser o equivalente ao “favela bairro” deles).
///A estrada para La Paz era boa, lisa e bem reta, mas ainda assim bem perigosa. Isso porque só havia uma pista de ida e outra de volta e mesmo estando sóbrio nosso motorista enlouquecido fazia ultrapassagens bizarras e desnecessárias. O pior de tudo era que ele não era o único, portanto mesmo quando ele estava quietinho na dele, outro ônibus ou caminhão aparecia fazendo uma ultrapassagem na contramão.
///Margeando a estrada víamos o longo gasoduto, principal produto da Bolívia e grande ambição do imperialismo brasileiro. Também vimos diversas referências históricas à guerra de Independência como o local onde teoricamente nasceu o exército boliviano e uma homenagem ao aniversário de uma batalha importante.
///Ao lado uma grande obra de duplicação da estrada estava sendo realizada. Ou seja, se tivéssemos vindo aqui um ou dois anos depois, provavelmente não estaria tão tenso cada vez que o motorista ameaçava fazer uma ultrapassagem.
///Outra coisa interessante é que, em todas as placas de obra do governo federal aparecia a imagem do presidente Evo Morales. O que não é surpreendente, pois é característico desses governos que comumente costumamos chamar de chavistas, o personalismo em relação à liderança. A política boliviana foi uma das coisas mais importantes e interessantes dessa viagem na Bolívia e merecerá comentários mais aprofundados nos próximos relatos. Mas o que eu posso adiantar é que reparei que conforme chegávamos mais próximos de La Paz maiores eram as referências populares e oficiais ao Evo e ao seu partido MAS (Movimiento Al Socialismo), mostrando que a cidade é o centro dos movimentos políticos do país.
///Pouco antes de chegarmos passamos por um curioso redemoinho de areia na beira da estrada.
///Então, depois de 24 horas viajando direto e cinco dias desde que deixamos Buenos Aires, chegamos à capital administrativa da Bolívia e centro dos principais movimentos sociais do país: La Paz. A chegada à cidade não poderia ter sido mais interessante e impressionante. Surgindo de repente atrás de uma pequena colina vimos a parte recente da cidade o alto La Paz, surgida nos últimos dez, vinte anos. Nossa primeira impressão a respeito da imensa cidade que rapidamente se aproximava foi de uma imensa favela. Pensei duas vezes antes de escrever isso aqui, para não parecer um idiota de classe média que vive numa bolha no Brasil e não vê a pobreza que mora ao lado. Mas não havia outro jeito de descrever nossa primeira impressão diante daquele conglomerado de casas de tijolos sem reboco e a pobreza visível. Mas não chegava a ser feio. Estava mais para algo curioso e impressionante.
///Uma diferença básica em relação dos lugares pobres que nós conhecemos são as frases pintadas nos muros da cidade. Socialismo é uma palavra usual e conhecida pela maior parte da população. A maioria dessas pinturas diziam o nome do Evo, mas igualmente constante era o MAS. Isso é interessante porque mostra a diferença essencial em relação ao lulismo no Brasil. Hoje, o PT perdeu a força que tinha na década de 80 como o partido dos pobres e da classe trabalhadora. Lula se tornou muito maior que o PT. Aqui na Bolívia, parece que o Evo cresceu junto com o MAS. A maioria dessas referências eram eleitoreiras, mas também havia frases de apoio ao presidente que nada tinham haver com um processo eleitoral.
///Passando pela Alta La Paz, entramos na velha La Paz. O termo correto, na verdade, seria descemos, ou mergulhamos. La Paz ocupa inteiramente um imenso vale rodeado por grandes montanhas. Ali, no meio, vimos alguns prédios um pouco mais altos perdidos na vastidão de casas de tijolos.
///Assim que descemos até La Paz caímos num forte engarrafamento. Com o trânsito lento, louco e a pobreza generalizada eu achei que estava no Rio de Janeiro, até que olhei para cima e vi aquilo: Era uma pintura... Só podia ser. Uma linda montanha de neve se destacava na paisagem urbana de La Paz. Uma mistura maravilhosamente contraditória para o que nós fomos acostumados a acreditar como deve ser o cenário de uma montanha nevada. (algo como Suíça ou EUA). Foi de tirar o fôlego.
///Estávamos em La Paz e não poderia ter sido uma chegada mais emocionante. Nossa exaustão ainda se fazia sentir pelo corpo, mas nossa cabeça foi embriagada pela alegria de estarmos ali. Então Anne faz uma proposta que não poderíamos recusar naquela atual situação: Vamos ficar em um hotel?
///Com a ajuda de um simpático e prestativo taxista encontramos um hotel baratíssimo onde pagaríamos 70 reais cada um, para quatro dias num quarto com TV a cabo e banheiro privativo. E para aumentar anda mais nossa felicidade, Anne encontrou um simpá... bom... esse não era bem simpático... Então um rabugento, mas fofo cachorrinho.
///Assim finalmente pudemos nos jogar numa cama, nos enfiarmos debaixo de dez quilos de cobertores e dormimos...
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
La Quiaca - Meio do Nada - 17º dia - 19/01
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///Apesar de estarmos em um quarto só nosso a noite não foi das melhores, pois começamos a sentir os efeitos da altitude. Para mim foi um pequeno mal estar, mas para Anne foi pior. Com isso acordamos cansado, o que não era nada bom para o longo dia que iriamos enfrentar.
///Partimos cedo para a fronteira e no caminho pegamos nossas passagens de trem que foram compradas em outro albergue da cidade (Copabana Hostel). Devo admitir que quando soube que deveríamos passar por uma ponte sobre um rio para chegar à Bolívia, visualizei algo mais ou menos assim:
///E fiquei ligeiramente surpreso em ver que essa era a ponte e o rio que cruzaríamos:
///Assim que chegamos ao primeiro posto de controle percebemos como nossa vida ali seria difícil. Havia uma longa fila onde deveríamos carimbar nossa saída da Argentina e depois uma fila ainda maior onde carimbaríamos nossa entrada na Bolívia.
///Até agora não tivemos nenhum problema em nenhuma fronteira, mas a partir de agora tudo isso iria mudar. Não que, nesse momento, tenhamos tido algum problema de ordem legal, mas assim que chegou a nossa vez de carimbar nossos documentos, o milico fechou a janelinha e pediu para aguardamos. Em resposta à essa grosseria nós... aguardamos, lógico.
///Enquanto esperávamos observei a movimentação característica do local. No início da viagem fiz uma pequena reflexão a respeito do que são as fronteiras em nosso imaginário, mas agora pude vivenciar esse fenômeno essa experiência faço questão de voltar mais uma vez à esse ponto. Até agora tínhamos passado por duas fronteiras: Do Brasil para o Uruguai pelo ar e do Uruguai para a Argentina pela água. É a primeira vez que estamos atravessando uma fronteira terrestre. Se para muitas pessoas (para nós mesmos em muitos momentos) é difícil de separar a idéia de Estado e Nação, a experiência prática em um local de fronteira seria importantíssimo para entender a artificialidade das demarcações fronteirísticas.
///Toda aquela burocracia, aquele policiamento, aqueles símbolos eram completamente artificiais para a realidade prática da região. Guardas, bandeiras, papeis, portões e cancelas separavam um mesmo povo que transitava por ali como se nada daquilo existisse. Todos têm a mesma língua, o mesmo sotaque, uma cultura e uma tradição similar dentro de sua própria dinâmica não homogênea e retilínea. Centenas moram em um país e trabalham em outro, ou moram em um país e tem família em outro. Isso pode nos suar surpreendente, mas muitos desses trabalham mais perto do que aqueles que moram em Niterói e trabalham no Rio.
///Em um determinado momento eu estava olhando para o pequeno rio quase seco que separava esses dois Estados e vi uma pastora de ovelhas caminhando com suas belas ovelhinhas e sem saber zombando o absurdo que é aquela linha imaginária. De que país ela é? Não importa, provavelmente nem ela mesma se lembra, mas se você pedir para ela descrever a região onde ela e sua família moram e morava ela saberá muito bem.
///Depois que finalmente fomos atendidos, fomos para a segunda e maior fila sobre a ponte. Nesse caminho vi outra coisa que me chamou a atenção. Um estúpido milico abordou uma senhora descendente indígena, com trancinhas e roupas coloridas, claramente da região e de forma grosseira verificou o conteúdo de sua bolsa mandando-a voltar de onde veio. A velhinha simplesmente falou “por favor!”, mas voltou sem questionar muito. Enquanto isso, eu, Anne e Kiko atravessávamos com o que poderia ser dez quilos de armamentos pesados e munição e mais alguns quilos de craque, sem que ninguém sequer pedisse para olhar nossas mochilas. O que impediu que aquela senhora local passasse e o que nos permitiu passar não foi o conteúdo de nossa bagagem (até porque duvido que ela estivesse carregando alguma coisa ilegal) e sim a lógica preconceituosa que permeia as autoridades de todos os lugares.
///Lembram que eu disse que La Quiaca é uma cidade fria por estar à quase 3000 metros de altitude? Imaginamos que Villazón, na Bolívia, também fosse a mesma coisa, pois as duas cidades estão muito próximas uma da outra. Até pode ser verdade isso, mas na fronteira, especificamente sobre a ponte, aquilo é um inferno. Sob o sol forte e arrastando duas toneladas de bagagens esperamos por quase três horas até que chegasse nossa vez de sermos atendidos. E o que eu disse sobre nossa sorte na fronteira? Quando Anne se encaminhou para o atendimento, o cara se levantou e disse que havia acabado o turno dele. Péssima idéia. Anne reclamou na hora e só não fez um escândalo corretamente, por que outro funcionário percebeu o perigo e nos atendeu prontamente.
///Cansados e com fome chagamos finalmente à Bolívia e pegamos um taxi para a estação ferroviária de Villazón. A cidade parecia mais desorganizada do que as que estávamos acostumados. No trânsito louco, eu nem reparei se haviam sinais de trânsito e se tivessem eles eram prontamente ignorados. Andar ali me deu saudade de visitar minha família em Campo Grande, onde o trânsito é bem parecido (Em Niterói não dá para ficar tão caótico porque fica tudo parado).
///A espera na estação foi tranquila, apesar de nosso extremo cansaço. Depois de alguns minutos embarcamos para o que seria nossa primeira viagem longa de trem da nossa vida: previsão de 15 horas. O trem era muito mais confortável do que imaginávamos e para quem pega Central-Japeri com alguma frequência, como eu, aquilo parecia fichinha.
///O cenário estonteante dos Andes e como nos surpreende e maravilha já foi bem descrito na postagem anterior. Mas mesmo não sendo a nossa primeira vez diante de dessa paisagem nosso admiração não diminuiu, até porque quando se atravessa os Andes, nada parece repetitivo.
///Passamos por mais um monte de rios secos, o que fica claro que o tempo seco castigava a região, mas não só. Anne começou a ter forte problema com a falta de umidade e mesmo molhando o nariz com regularidade, a secura era um grande incomodo. Como a fome apertou, fui desbravar o trem em busca de algo pra comer. Me sentia em um filme de ação quando passava de um vagão para outro e via a paisagem passando em velocidade.
///Finalmente cheguei ao “Vagón Comerdor”, conhecido por nós como Vagão Restaurante. Disposto a comprar um sanduíche para mim e para a Anne fiquei de queixo caído quando vi que, de fato, se tratava de um restaurante. Surpreendido perguntei umas três vezes para o garçom se realmente aquilo era aquilo mesmo. Mesas de quatro, cardápio e comida de verdade. Corri de volta para nossos lugares e ao dar a notícia Kiko e Anne se levantaram num pulo e me seguiram para lá.
///Antes mesmo de comermos já estávamos felizes novamente. Aquela descoberta elevou o moral da tropa e voltamos a apreciar os Andes que passavam por nossas janelas revelando suas estonteantes paisagens.
///Depois de ficarmos horas sem comer e se ver diante de um belo prato bem servido de comida, ninguém consegue se segurar. Nós três comemos como se nunca tivéssemos feito isso na vida. Kiko mora numa república que quando aparece um rato, ao invés de susto, eles preparam um churrasco. Eu como tudo que me põem na frente, mas a Anne, mesmo comendo bem normalmente, não aguentou a própria voracidade com que ela atacou a comida e ficou enjoada. No auge do seu enjôo ela correu para o banheiro, mas quando viu que no final da privada havia apenas um buraco onde se via as pedrinhas e graminhas passando, ela desistiu (Já eu adorei fazer xixi ali).
///Pela janela algo interessante chamou nossa atenção. Com regularidade passavam casas de barro incrustadas nas montanhas e isoladas de tudo. A diferença entre as que estavam habitadas e as que não estavam eram, algumas vezes, imperceptíveis e certamente ali não havia qualquer tipo de serviço básico. De quando em quando também passávamos por cemitérios igualmente de barro. Eram até bonitos dentro daquele contexto.
///Também notamos tufos brancos que por alguns segundos pensamos ser neve. Depois me toquei (e confirmei olhando no mapa) que aquilo era sal. Montinhos de sal indicavam que estávamos passando ao lado do belíssimo deserto de Sal ou Salar de Uyuni. Infelizmente, não estava em nossa programação visitar esse espetáculo da natureza, mas foi interessante a experiência de passar tão perto dele e ver seus efeitos na região ao redor.
///No final da tarde paramos em Tupiza para esticar as pernas e pegar alguns passageiros. Infelizmente deu não só para esticar as pernas, como para ir ao banheiro e se quiséssemos dar uma volta na cidade também teria dado tempo. O trem havia enguiçado e ficou uma hora parado em manutenção antes de finalmente partir.
///Apesar do vagão ser mais confortável do que os trens da Supervia (o que não é difícil), dormir não era algo fácil de se fazer. Além da poltrona não que não era grande coisa, o trem parou várias vezes no meio do nada por motivos não explicados. A falta de informação nos deixava tensos e isso não contribuiu para uma noite de descanso. Em uma dessas paradas longas e aleatórias, onde uma mulher estava gritando do lado de fora, o Kiko se encontrava no Vagão Restaurante, com a janela aberta e perto de vários funcionários. Assim que ele voltou, eu perguntei o que havia acontecido, mas ele nem sequer notou que o trem havia parado... Não me surpreendi, apesar de ter ficado frustrado.
///Então finalmente em algum momento, de algum lugar entre Tupiza e Oruro, eu cochilei.
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