9º dia - 11/01
Antes de tudo gostaria de informar que, com pesar, essa deve ser minha última postagem anda em viagem. Escrever no blog, apesar de muito divertido e dos insentivos que recebi está tomando muto tempo e as vezes até atrapalhando, criando conflitos desnecessários. Relatar isso também acho importante por que faz parte da história dessa viagem que eu estou registrando. Essa postagem já estava pronta, as demais farei anotações em tópicos num caderninho e, com calma, escrevo ao chegar em casa. Não será a mesma coisa, mas ainda assim é um registro pessoal importante para mim. Obrigado e curtam mais essa (des) aventura
Siamos do Albergue com o objetivo de resolver os problemas de cartões do dia anterior. Para isso voltamos à estação do Buquebus (o navio que nos trouxe), onde o Kiko usou pela última vez seu cartão. Como esperado, não encontramos nada então fomos até um shopping próximo para fazer as ligações necessárias para bloqueios e desbloqueios.
Para falar a verdade não fomos a um shopping qualquer, fomos à Galeria Pacífico. Quem me conhece sabe que ir ao shopping não é uma opção de turismo que eu ache agradável, afinal todos são iguais. É que nem ver igreja barroca em Minas Gerais: São todas lindas, mas na quinta eu já não aguento mais. Mas, de fato, esse shopping é diferente. É diferente e de gente “diferenciada”, pois é um dos mais caros da cidade. Ainda assim é certamente um dos mais bonitos que eu já conheci. Externa e internamente sua decoração é impressionante.
Porém, não estávamos lá para fazer comprar (ainda bem) e sim para resolver problemas. Fiquei uma hora sentado e dando apoio moral aos meus queridos companheiros de viagem, afinal estou invicto em relação a problemas financeiros, o quanto isso durará, ninguém sabe. Apesar de mais alguma dose de aborrecimento e paciência os problemas foram resolvidos e aliviados aproveitamos para passearmos na Calle Recoleta, que ficava próximo ao shopping.
Assim que entrei na famosa Recoleta foi inevitável a comparação com a região da uruguaiana no centro do Rio. Depois eu pensei que essas comparações são inevitáveis. Nós brasileiros, dos da independência, temos a péssima mania de nos acharmos deslocados do resto da América Latina. Tivemos uma independência pacífica (que emocionante), intslamos um maravilhoso e estável governo imperial, enquanto nossos hermanos anarquistas afundaram-se na bagunça da república democrática e somos o único país de língua portuguesa. Mesmo que esses exageros que eu disse não são aceitos por pessoas como a maioria que acompanha nossas aventuras, essa construção de memória faz parte de nossa cultura e nós carregamos muito disso.
Fiquei impressionado com a semelhança desse centro de comércio na estranha Buenos Aires com o Rio de Janeiro, mas é claro que duas cidades, que foram capitais coloniais, que sofreram a dominação europeia, que fez uma independência conduzida pela elite e instalou governos aristocratas sempre terá semelhanças.
Caminhando então por essa Uruguaiana argentina tivemos a nossa primeira demonstração de um traço histórico da cultura Argentina: o panelaço. Quem nos dera que manifestações políticas fossem traços marcantes de nossa cultura (sem cair no clichê elitista do brasileiro como um povo pacífico). A Argentina tem uma tradição de organização popular muito grande. Essa manifestação específica foi dos trabalhadores informais que aparentemente foram expulsos desse lugar turístico. Para vermos que nossa história não é tão diferente assim da história dos povos latinos em geral. Aqui na Argentina também ocorre um processo que no Brasil é mais acentuado graças a Copa do Mundo e Olimpíadas: a retirada de camadas sociais que “enfeiam” lugares turísticos.
Com esse e outros protestos percebemos que, com a crise, a imagem de Cristina Kirchiner começa a ser afetada. Não é raro ver nas ruas cobranças à presidente tanto quanto mensagens de apoio pouco ou nada politizadas feitas principalmente pelos partidos da base aliada.
Outra informação importante sobre a Argentina é que aqui a maconha é legalizada há seis anos e ao contrário do que os mais conservadores possam afirmar, não existiam pessoas soprando fumaça na sua cara, nem jovens enlouquecidos te assaltando com cacos de vidro. Não é a legalização que nós socialistas acreditamos, mas é um importante passo.
Em relação ao idioma, eu achei o castelleano mais difícil que o espanhol no Uruguai. Ainda assim da para conversarmos, apesar de eu perceber que estava com sotaque uruguaio: aqui “calle” é algo parecido com “cadje” e lá no Uruguai é mais “cache”, mas isso não tem sido um problema tão grande assim. Por exemplo, numa conversa com outro taxista eu entendi perfeitamente o diálogo quando ele disse que torcia pro River Plate e a Anne orgulhosa disse que o Vasco é inspirado River. Levantaram a boa a meia altura e mandei de voleio pro gol: “River e Vasco agora tem outras coisas parecidas, né? Ambos caíram para a Segunda Divisão!”. Ta na rede e é do Renan!
Almoçamos na Florida e isso reafirmou radicalmente uma ideia que tivemos já no Uruguai: não dá para comermos fora. É caro, é mal servido e/ou tem pouca variedade. No albergue a gente continua sem feijão, mas pelo menos tem o temperinho brasileiro, sai muito mais barato e a quantidade é a que a gente quiser.
Mal comidos, mas comidos fomos andando até a histórica Plaza de Mayo. Apesar da cidade ser bem grande para os padrões uruguaios, tudo aqui é relativamente perto, principalmente perto do ponto onde nosso albergue fica. Desembocamos na belíssima praça, com o céu nublado (perfeito para fotos) e uma temperatura fresca. Ao nosso lado direito estava o Museu do Cabildo, na diagonal esquerda a Catedral Metropolitana onde está o corpo de San Martí, o principal libertador platino. A nossa frente o palco das principais manifestações do povo argentino contra as opressões ontem e hoje a Plaza de Mayo, onde as madres faziam a vigília em busca e denunciado seus filhos desaparecidos nos porões da ditadura. Por fim ao final dela a casa do poder executivo, onde a presidente faz seus despachos (hum Iansã!): a Casa Rosada.
Mais uma vez a imagem apelativa de Nestor e Cristina é exposta à exaustão. Aos pés da Casa Rosada uma exposição com fotos belíssimas do casal K era de emocionar qualquer um que não tenha um senso crítico social.
Depois desse tradicional e imperdível passeio, fomos à estação e três da Constituición, onde pretendíamos comprar logo nossa passagem para Córdoba, para onde pretendemos partir no domingo. Bom, como vocês já vira a sorte não anda ao nosso lado neste país Hermano e descobrimos que a passagem de trem se compra na Estação de Retiro , exatamente de onde nós estávamos pela manhã. Se não fosse pela bela arquitetura do lugar (o que percebemos ser frequente aqui em Buenos Aires), nossa frustação seria maior.
Finalmente chegamos ao albergue e pusemos em prática nossa ideia de “agora em diante, só comida caseira”. Não é tão simples quanto parece, ainda mais em um albergue dessas proporções. A “cozinha” é muito pequena, falta muita coisa básica e a lotação é bem grande. Fazer comida nesse caos você experimenta sentimentos como ódio, repulsa, raiva, divertimento e alegria em um ambiente multiétnico e linguístico.
O poder de uma comidinha caseira bem feita foi mais forte do que nós e todos caíram nas garras de Morfeu.






Valeu Renan! Sentiremos falta de seus relatos, mas em uma viagem com essas características o importante é preservar o coletivo e privilegiar a vivência. Talvez seus companheiros estejam sentindo o sua falta e achando que vc perdeu o foco. Por outro lado eles precisam respeitar essa sua habilidade e necessidade de comunicação. Uma solução alternativa é a publicação de fotos e de breves comentários. Eles servirão de roteiro para um texto mais consistente a ser escrito posteriormente. Estou no litoral pernambucano ouvindo os protestos da Rosane, normalmente tão cordial, que não aceita o tempo nublado e as pancadas de chuva em pleno janeiro; fato realmente pouco comum. Particularmente gosto do tempo nublado porque facilita as fotografias e preserva a saúde. Bjs em todos.
ResponderExcluir