quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Colonia - Buenos Aires. 8º dia - 10/02

--------------------------------8º dia – 10/02-----------------------------------

 ///Um dos sintomas de passar uma noite inteira sem dormir, além do pensamento lento, corpo mole, sensação de que você só está se movendo graças a alguma magia das trevas, é a perda de referência de onde terminou o dia anterior e começou o dia que se segue. A consequência disto para esse blog que se divide em dias é que eu também não saberia muito bem quando começar meu relato. Começarei então imediatamente após o fim do último post.

 ///Terminando de escrever o que eu tinha que escrever não me restava mias nada de útil para fazer a não ser esperar as horas passar. Calor, mosquito, desconforto,... Os minutos se arrastaram longos e intermináveis e para tentar fazer o tempo passar saí do albergue em um passeio noturno pela histórica cidade... Quem sabe ela era mal assombrada e isso daria alguma emoção para aquela interminável espera? Mas não,... Nem isso ocorreu.

 ///Passando o que pareceu semanas, finalmente as três e meia da madrugada começamos a arrumas nossas coisas e as quatro horas partimos para embarcar no navio.

 ///Lembram que eu disse que esperava contar sobre um navio bonito confortável e vazio? É exatamente isso que vou contar. A revelia do relato louco do dono do albergue (que somando a falta do ventilador nos fez ter mais raiva ainda dele), o navio, da empresa BUQUEBUS, era confortável, bonito e estava vazio. Tinha de tudo no barco, o que me deu a sensação de estar pela primeira vez em um navio de verdade.
///Assim deixamos o pequeno Uruguai. País platino, gaúcho e pouco populoso, mas que revelou para nós toda a sua beleza provinciana, nos acolheu e aconchegou em maior parte das vezes de forma alegre e receptiva.

 ///Não importa o quanto um transporte é confortável, dormir nele é sempre complicado. Kiko rapidamente resolveu o problema e abandonou a poltrona se deitando no chão. Esperto foi ele e os demais que também fizeram isso, pois eu e principalmente Anne não fomos tão bem sucedidos em nosso sono.

 ///Acordei já estávamos ancorando em Buenos Aires e minha primeira impressão foi: “C@#@£¬º!!!” seguido de um “Como essa cidade é grande!”. Imensos prédios modernos de vidro típicos de uma grande metrópole apareciam pelas janelas do navio e se impunham imponentes para os pobres viajantes uruguaios que certamente não têm nada parecido assim em seu país. Depois de tanto tempo no Uruguai me senti um retirante do interior nordestino chegando ao Rio de Janeiro. (Talvez por isso mesmo eu saí com o manto tricolor baiano nos meus primeiros dias na Argentina.)
Nosso primeiro dia em Buenos Aires foi marcado pelos extremos: Uma chegada mágica e o resto desastroso. Vamos então primeiro à parte boa para depois partimos para o perrengue. A estação do navio parecia mais um aeroporto pequeno. Saímos de lá e tomamos um taxi na rua em frente, pois malandramente sabíamos que tomar um taxi em frente à estação sairia muito mais caro. Nossa decisão se mostrou acertada não só em termos financeiros, como em termos turísticos. Tivemos a sorte de pegar um taxi com um motorista, já senhor e que conversou o tempo todo conosco sobre Buenos Aires, a cidade que ele evidentemente amava. Os taxis em Montevideo tinham uma barreira de vidro entre o motorista e os passageiros que não nos permitiam essa interatividade (a primeira vez que o Kiko entrou num desses falou: “Ué, fomos presos?!”) Na radio do veículo tocava um maravilhoso tango que nos recepcionava banhando em seu som típico e maravilhoso. Passando por um grande mural de Evita Perón no meio da famosa e imensa 9 de Julio ele declarou: “Essa é a nossa condutora moral.” Já nas primeiras horas em Buenos Aires já era sensível a força do peronismo. É impressionante como um governante de tantos anos atrás anda rege a política de um país grande como a Argentina.
A força do peronismo se estende ao casal Kirchiner e da presidenta Cristina, mas que começa a ver sua imagem afetada pela crise financeira que assola o país, como veremos mais para frente. Quando perguntamos ao motorista como estava o tempo em Buenos Aires ele disse: “Ahí en Argentina no hay lluva nin plata.” A coisa ta feia. A cidade é realmente grande. Em comparação à Montevideo, aqui há mais carros, mais gente, mais prédios, ou seja, isso aqui parece, de fato, uma grande capital. Tanto parece que as comparações com o Rio de Janeiro são inevitáveis. Por causa da crise, essa comparação é cada vez mais parecida. As referências que eu tinha de Buenos Aires era de uma cidade limpa, organizada segura e, mais uma vez, sem pobreza. Passeando hoje pela capital da argentina é comum ver miseráveis e a sensação de segurança que se tinha a um tempo atrás diminuiu consideravelmente. Com a crise, aumentou a pobreza, a miséria e o desespero. A consequência disso nós conhecemos muito bem. Perto do fim da 9 de Julio chegamos à Avenida Lima, onde fica nosso albergue: “Hostel Sol”. Assim como os albergues em Montevideo, esse também respira um ar de juventude. Ele é colorido, com uma decoração diferente que mistura o velho e o novo e o lugar é muito maior do que parece pelo lado de fora. Maior e com muito mais gente, assim como a própria cidade. Por ser grande assim ele também é menos intimista. Outra coisa que me chamou atenção aqui é a quantidade de brasileiros: pela primeira vez a imensa maioria da hospedagem. A música local (do albergue) predominante é nossa. De funk ao samba, passando por bossa nova, rock e tudo mais. Um dos administradores daqui é brasileiro, carioca da gema e já ensinou muitas coisas importantes ao habitantes locais como percebi quando um argentino entrou e disse: “Que porra é essa?!”.
Bom,... Se você está gostando de nossos relatos e impressionado como, bem ou mal, tudo da certo, está na hora de parar de ler e continuar acreditando nisso. Fora calor e cansaço (que continuamos a enfrentar em Buenos Aires, mesmo que não fosse sufocante como Colonia), nossa viagem tinha sido até aqui sem grandes sobressaltos. A indicação que talvez as coisas veio logo a seguir. A primeira coisa que Anne fez foi perguntar onde tinha um restaurante brasileiro. Para nossa felicidade a mulher indicou um em Palermo, um bairro rico e importante de Buenos Aires. Para isso precisávamos pegar o metro, mas para comer um feijãozinho pegaríamos até a barca do inferno! Entrando no metro me senti em Nova Iorque. (“Claro Renan!” você pode pensar, “Por que você já esteve muitas vezes em Nova Iorque!”, no que eu respondo: “Quem cresceu vendo ‘Ei Arnald e ‘Homem Aranha’, não precisa ir para NY para conhecê-la.”) O lugar era velho e sujo, mas ainda assim bonito e charmoso. O trem grafitado completava o cenário. Ainda sobre o transporte, os ônibus da cidade também merecem destaque. A maioria deles mantém um estilo antigo, mas não caindo aos pedaços. Claramente foram reformados mantendo os traços originais. Os ônibus aqui só aceitam moeda, o que me faz crer ser uma medida do governo para estimular a circulação das mesmas e criar situações engraçadas para turistas desavisados como nós. (Tipo o Kiko tentando enfiar uma nota onde deveria entrar um cartão e nós tentando colocar Pesos Uruguayos). Vimos que aqu tem ônibus de turismo de dois andares sem teto na parte de cima. Realmente não entendo quem vai conhecer um lugar e fica preso numa bolha turística, sem conhecer o dia a dia da cidade. É como conhecer o mundo pelo Google Street View.
Descemos em Palermo e andamos o que pareceu uma eternidade, mas que valeria a pena se no final pudéssemos saborear uma feijoada bem preparada. Tempo depois finalmente encontramos o tal restaurante chamado “Me leva Brasil”. Em seu menu tinha todas as nossas comidas e a mais importante, o glorioso feijão! Só faltou uma coisa: ele estar aberto. Isso mesmo. Atravessamos meia Buenos Aires e demos com a porta na cara. Agora estávamos esfomeados, casados, com calor, em um bairro rico e caro que só tinha as mesmas comidas que não aguentávamos mais comer. Uma coisa eu aprendi com uma história parecida com a nossa, mas talvez menos interessante. Três amigos chamados Harry Potter, Hermione Granger e Rony Wesley fizeram um mochilão forçado e uma frase que li em seus relatos se tornou a pura verdade em nossa aventura: com fome, os nervos ficam muito mais a flor da pele e as pequenas brigas constantes. A nossa sorte é não carregar orcruxes, mas as vezes acho que o lap top cumpre um papel parecido. Normalmente, da mesma forma que a tensão aumenta nos momentos de fome, ela se dissipa imediatamente após comer. O problema é quando, junto com a fome, tem o cansaço e o comer mal. Sentamos em um restaurante que desistimos de ficar em poucos minutos. Tudo caro, tudo pouco, tudo carne... Continuamos a caminhar e finalmente conseguimos parar num lugar que, apesar de, como de praxe, cobrar até nossa alma, nos alimentou.
Tudo resolvido? Não. Ao pagar a conta descobrimos que o cartão da Anne, que já deveria estar desbloqueado, ainda não funcionava. Voltamos para o albergue para nos arrumarmos e sairmos para curtir a noite de Buenos Aires e também tentar resolver o problema do cartão. Horas depois não só não tínhamos resolvido o bloqueio indevido do cartão da Anne, como descobrimos que o Kiko perdeu o dele. Isso mesmo, quando você acha que o problema bancário não pode piorar, nossa conhecida Lady Murphy faz questão de nos dar um abraço apertado. Depois de muito procurarmos no albergue e nada encontrar, ficou resolvido que a solução para esses perrengues ficaria para amanhã de manhã e essa noite tentaríamos desanuviar de nossos problemas e comer uma pizza na pedra. Sentados em uma gostosa pizzaria na famosa Calle Corrientes (que cruza a 9 de Julio diretamente no obelisco), a mágica Buenos Aires, como num pedido de desculpas despejou sobre nós uma fraca e refrescante chuva de verão que tinha como objetivo lavar nossos problemas e nos da força para continuar a curtir a revelia dos perrengues.

2 comentários:

  1. Cara Ren apesar dos seus perrengues o seu relato tá muito maneiro!!! Muitas saudades de vcs! Só não sei como ;e que o Kiko não abriu um monte de contas em bancos diferentes e não pegou um monte de cartões, pq todo mundo sabe que é óbvio que ele ia pereder alguma coisa =D Um beijo =*

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  2. Valeu, Renan. Estamos ultimando preparativos para uma pequena viagem ao nordeste (amanhã). Ontem foi a solenidade de entrega da carteirinha da OAB ao Felipe, garantindo-lhe o pleno exercício da advogacia. Coloquei fotos no seu email. Niterói está saindo da estação de muita chuva para a de menos chuva, para desespero dos que tinham expectativa de sol e praias. Procurar comida brasileira no exterior implica em disposição para pagar caro e a sabedoria de não esperar qualidade. Não há saída, o correto é curtir a gastronomia local e curtir a saudade do "Feijão Maravilha, o pretinho que satisfaz".
    Bjs em todos

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