-----------------------------Sexto dia – 08/01-------------------------------
///Dormimos tarde e mal por causa do ataque feroz do exército de mosquitos platinos super desenvolvidos e por isso acordamos tarde nesse dia. Para falar a verdade eu acordei as seis horas da manhã para fazer o login no trabalho on line de Anne, sobre orientação semi consciente e impaciente dela. Mas como é época de férias não há perguntas a responder e podemos voltar a dormir.
///Depois de acordarmos de fato, fomos à praia de Pocitos em Montevideo. Para dar um descanso a nossa cozinheira de plantão, resolvemos comer fora e saltamos numa feirinha que, por acaso e sorte, era ao lado de Pocitos. Nosso almoço foi mais uma vez o choripan (pão com linguiça de chorizo). Não sei como o povo desse lugar não é gordo. Se eles comem o que nós comemos aqui todos os dias, eles comem muito mal. Fico com pena de um vegano ou vegetariano nessas terras, ele acabaria sendo devorado também.
///Depois de mais esse almoço sadio, descemos até a praia. O cenário é bem agradável. Tem um parque de diversões na beira da praia, que é pequena, mas bem bonita em termos de vista. Comprovei aqui minha suspeita em relação a artificialidade da praia de Atlántida. Até onde sabia, praias de rio tendem a ter areias mais escuras devido a quantidade de sedimentos depositados ali. Em Pocitos existe uma parte de areia branca e fina e outra de areia negra e em alguns lugares já dentro da água é bem lamacento. Na areia branca tem uma placa que diz que ali são as dunas artificiais feitas pelo governo. Nós tivemos a sorte, ou o azar dependendo do ponto de vista, de pegarmos um momento de baixa nas águas do rio e a faixa de areia sedimentar era bem grande.
///O contato com esse tipo de areia pouco comum para nós que estamos à beira do Atlântico, nos permitiu dar início à um projeto de construção digna de aparecer naqueles programas ricos em testosterona da National Geographic ou da Discovery (Obras Incríveis, Super Construções, Olha Como O Nosso é Maior Que O Seu, etc). Às margens do Rio de la Plata erguemos um forte com o objetivo de proteger esse povo de futuras invasões estrangeiras.
///O projeto foi amplamente bem recebido pela população local, que participou de forma ativa em sua idealização e construção. Após seu fim, o forte foi entregue integralmente para o povo nativo, que se comprometeu em administrá-lo com igualdade e justiça social para a classe trabalhadora.
///Assim como em Atlántida, em Pocitos você entra nas águas do rio anda, anda e parece que não aprofunda nunca. No rasinho a água chega a ser quente, o que muda rapidamente conforme entramos quilômetros adentro com a água na canela (pelo menos assim nos parece).
///Voltamos ao albergue onde encontramos o amigo da Anne e nosso ex companheiro de curso, Bellot que estava no fim de uma pequena jornada com a namorada na região platina. Como ambos estavam muito cansados, não quiseram sair para comer conosco.
///Em nosso roteiro original pretendíamos, no dia seguinte, chegar cedo em Colonia, conhecer a cidade e partir de noite para Buenos Aeres pela balsa, mas nosso estrategista militar Kiko percebeu que seria impossível para nós rodar numa cidade, por menor que ela fosse, com 700 quilos de bagagens cada um. Por isso decidimos que dormiríamos lá e partiríamos de manhã bem cedo. Para garantir fomos ao shopping Tres Cruces, onde também funciona a rodoviária e compramos a passagem para Colonia e aproveitamos para comer uma pizza. O restaurante, como todos, era cheio de estratégia para pagarmos mais. Nós pedíamos uma pizza e pagávamos a mais pelo sabor. Coisas de Montevideo.
///Como iriamos acordar cedo no dia seguinte, preferíamos passar a noite no albergue, que tem sua própria vida noturna bem agradável.
///Esse foi nosso último dia em Montevideo. Em geral, a cidade me deixou (e acredito que meus companheiros de viagem concordem minimamente com isso) com uma impressão positiva, apesar de inúmeros ressalves. Fomos sempre bem atendidos e a cidade é bem organizada, o que é herança do período colonial, onde a Espanha utilizava uma estratégia de dominação diferente da de Portugal, organizando as cidades e construindo uma vida urbana mais complexa. A quantidade de lugares e prédios históricos também dá à cidade uma beleza típica de uma grande cidade de importância histórica, mesmo sendo tão pequena como uma cidade média do Rio. Ainda assim, a cidade apresenta todas as características contradições de um país capitalista periférico. A pobreza ficou para fora da cidade, mas é vista com frequência em suas ruas.
///Outro problema que poderia baixar uma possível nota da cidade, é em relação à comer fora. Não tem haver somente com a nossa abstinência de feijão, mas principalmente porque a grande maioria dos restaurantes, como vimos, tem dezenas de regras escrotas e estratégias maliciosas para tirar o dinheiro dos mais atentos. Infelizmente, pelo que ouvimos falar, não será diferente na Argentina.
///Todos os uruguaios andam o tempo todo, com chimarrão nas mãos não importam onde estejam. Pareceram-me mais “viciados” que nossos conhecidos gaúchos.
///Falando nisso, também senti uma grande proximidade entre os três países do Cone Sul: Uruguai, Argentina e Rio Grande do Sul. Mais entre Uruguai e Argentina, mas não foi raro ver uruguaios com camisas do Grêmio.
---------------------------------Sétimo dia – 09/01-----------------------------------------
///Acordamos cedo e partimos do nosso belo, querido e aconchegante albergue e fomos para a rodoviária. Entre mortos e feridos, Montevideo vai deixar saudades. As 11h e 30min pegamos o ônibus rumo ao nosso próximo destino. Depois de passar pelos campos e mais campos e mais campos uruguaios, com suas vaquinhas e seus boizinhos pastando em largas terras que poderiam estar sendo dedicadas ao cultivo do feijão (pelo menos numa delas, poxa), sempre margeando o Rio da Prata chegamos à histórica cidade de Colônia de Sacramento.
///Desejada fortemente pelos portugueses em todo período colonial e irredutivelmente defendida pelos espanhóis, nossa primeira impressão da cidade, assim que descemos do ônibus foi: “Que calor é esse?” Lembram que eu reclamei do calor no primeiro dia de Montevideo? Então, assim que pudemos o pé em Colônia sonhamos estar novamente sobre aquela temperatura. Não era só o sol terrivelmente quente que parecia nos seguir até na sombra, como descreveu o Kiko. Inexistia qualquer brisa (nem mesmo quente) vinda do imenso Rio da Prata. Quando eu chegar em casa rasgarei meu livro de geografia do secundário (que Anne não leia isso), pois eu jurava que se eu fosse ao sul iria ser, ao menos, mais fresco.
///Caminhamos pouco (até porque não há muito por onde caminhar) e chegamos ao Albergue “Oriental Hostel”. Diferente dos outros dois albergues que ficamos em Montevideo, esse tinha uma arquitetura e decoração tradicionais, mas ainda assim bonitas e que combinavam com a conjuntura da cidade. Um exemplo marcante disso, para mim, foi a senha do Wi-Fi daqui. Na “Escuela de Rock” tivemos que por Black Jack, em Piedras de Afilar, a senha era Dragon Ball, mas aqui era simplesmente 73249y7983749837, ou algo do tipo. Poderíamos até ter uma boa impressão do lugar, se a primeira coisa que reparamos não fosse a falta de um ventilador. Desesperados perguntamos se, pelo menos a noite esfria e mais de um cidadão disse que sim... Essa mentira deslavada me fez odiar um pouco o povo desse lugar, mas isso veremos mais para frente.
///Almoçamos em um lugarzinho bonitinho,... Mas ordinário. Com apenas uma atendente, a comida demorou muito a vim e quando veio parecia mais hambúrguer do Mc Donald, onde a foto no cardápio não tem nada haver com o que foi servido. A salada simplesmente não foi lavada e no alface encontramos terra e o bife do Kiko tinha um cabelo tão grande que se pensarmos pelo lado positivo, daquele tamanho não poderia ser um pentelho. Esse acontecimento foi tão nojento que o Kiko, em protesto, comeu somente 90% do bife. Depois de esperar mais de 10 minutos pela conta, simplesmente deixamos o dinheiro, levantamos e fomos embora. Até agora nos arrependemos de ter deixado o dinheiro.
///Após a nossa pior experiência gastronômica até agora nessa viagem Anne declarou: “Por que os portugueses queriam tanto essa terra, porra?!”. Colonia foi almejada por nossos amigos lusos devido a sua posição estratégica bem perto da boca do Rio da Prata e exatamente em frente à Buenos Aires. Sendo assim Buenos Aeres deve ser realmente um lugar muito bom, ou esses portugueses são muito portugueses.
///Para compensar o calor de cerca 100 graus, o turismo histórico tinha que valer muito a pena... e valeu. Mesmo suando como um porco e me submetendo ao extremo de expor meu físico avantajado, com risco de causar muita inveja, foi um passeio histórico cultural lindíssimo e, na minha opinião, valeu muito a pena.
///Em Montevideo vimos edifícios e monumentos históricos ligados principalmente ao período da Guerra de Independência no século XIX, mas em Colonia a imensa maioria dos lugares no circuito histórico são do século XVI e principalmente do século XVII, numa mistura de arquitetura e contribuições culturais portuguesas e espanholas fruto de suas diversas refundações cada vez que era dominada por uma nova metrópole. A presença arquitetônica portuguesa é tão forte, que nos fez sentir em um passeio nas nossas próprias ruinas e construções históricas.
///Do farol tivemos uma bela vista da cidade e do transporte que nos levará à Buenos Aeres. Fiquei até constrangido de chamar aquilo de barca, sempre pensando em nossas humildes barcas. Aquele era um verdadeiro navio que transporta diariamente turistas e trabalhadores de Colonia à Buenos Aeres.
///No meio desse passeio descobrimos que o cartão de crédito de Anne havia sido bloqueado pelo idiota do Itaú que, mesmo ela tendo avisado da viagem, achou que poderia ser uma fraude. Quase que a gente se ferra, pois ela põem tudo na tajeta do pai. (lembrando pros mais maldosos, que tajeta é cartão em espanhol.)
///O dia foi passando, jantamos em mais um clássico podrão e a temperatura.... manteve a mesma. Na realidade minha impressão é que ela aumentou, mas desconfio que isso seja impossível. Para completar nosso calvário vimos que os mosquitos super poderosos não é uma exclusividade de Montevideo e descobrimos que nossa passagem de barco para Buenos Aires é às 5h e 30 da manhã.
///Conclusão: nesse momento em que escrevo são exatamente duas horas e dez da madrugada, a Anne está desmaiada de mau jeito na poltrona ao meu lado da sala comum do albergue, o Kiko está desenhando em no sofá e eu estou escrevendo meu incansável relato, sob um calor similar somente às profundezas da Montanha da Perdição em Mordor, enfrentando o ataque incessante de um exército bem treinado de mosquitos mutantes, que insistem em ignorar minhas armas de defesa (repelentes naturais e industriais), tudo para manter meus fiéis leitores atualizados de nossos perjúrios e glórias, enquanto esperamos bater quatro horas da manhã e nos caminharmos para a travessia do rio em forma de mar que é o Rio da Prata.
///Torço para que meu próximo relato fale de um navio confortável, com ar condicionado e vazio, mas desconfio que nossas vidas não serão tão fáceis.
///Fico por aqui e espero que depois disso todos vocês aproveitem bem seus ares condicionados e seus ambientes sem mosquitos e sonhem conosco em seus sonos traquilos e confortáveis seus bandos de.... digo... digo...Desculpem... O calor e o sono estão começando a me afetar.
///Um grande beijo e um abraço amigável em todos.
///Até mais!
Apenas isto: seu cabelo na primeira foto do forte tá lindo! Garnier Fructis neles, amigo! hahaha
ResponderExcluirOutro texto muito bom, continue atualizando a gente! :)
Boa noite Renan, Anne e Kiko. Por favor não pensem que há ironia nessa saudação.
ResponderExcluirAcho que vocês devem continuar enfrentando os mosquitos com as armas convencionais, mas, se os ataques continuarem, radicalizem. Capturem o líder e cantem durante uma hora seguida o “ai se eu te pego / assim você me mata (...)”. Acho que em menos de 20 minutos a nuvem toda se transferirá para um lugar distante.
O relato está cada vez melhor, mas as fotos também merecem elogios por serem descritivas e buscarem enquadramentos criativos. Quando você quiser incluir alguém, sob sol muito forte (o que provoca contraste acentuado entre as zonas de claridade e de sobra), ou quando houver muita claridade ao fundo, use o flash. A utilização desse recurso (luz de preenchimento) durante o dia, trás efeitos surpreendentes sem comprometer a naturalidade da cena. Ao contrário, a luz auxiliar recupera parte do que a câmara não capta nas condições descritas.
bjs
Ren mais um relato maneirissimo! Por incrivel que pareça acho que em Niterói tá mais fresco que ae, pelo menos não estou morrendo de calor como nos anos anteriores! Acho que na real a temperatura ae tá maior por causa do La Niña (fenomeno climatico contrario do El Niño),pois creio que normalmente a temperaturanão é tão ruim assim não... Um beijo pra todos e continue escrevendo!
ResponderExcluirRenan, esses monumentos/denúncias são interessantes:
ResponderExcluir"Na lógica do "Nunca mais", o Estado argentino desenhou um plano de memória, verdade e justiça que busca recuperar e tornar visíveis as atrocidades cometidas durante a ditadura, por meio da Rede Federal de Lugares da memória, a cargo do Arquivo Nacional da Memória, o Estado assinalou 26 lugares vinculados com o terrorismo de Estado, 24 dos quais foram centros clandestinos de detenção. Segunda dados oficiais, mais de 500 centros clandestinos funcionaram durante a ditadura.(...)
Os 26 lugares vinculados com o terrorismo de Estado são sinalizados com placas ou com três pilares de cimento de 7 metros de altura unidos por uma viga horizontal que tem gravado o texto: "Aqui funcionou o centro clandestino de detenção conhecido como...durante a ditadura militar que assaltou os poderes do Estado entre 24 de março de 1976 e 10 de dezembro de 1983". (...)
Na cidade de Buenos Aires foram sinalizadas a Superintendência de Segurança Federal (ex-“Coordenação Federal”) da Polícia Federal Argentina, em abril de 2011; e a Garagem Olimpo (cuja história foi levada ao cinema e funcionou como dependência da Polícia Federal) foi marcada em agosto de 2011. Na província de Buenos Aires, foram sinalizados a Guarnição Campo de Maio do Exército (2008), o "Destacamento de Arana" ou “Poço de Arana”, destacamento policial da bonaerense (2009), e o "Poço de Banfield", Brigada de Homicídio da polícia bonaerense (2008), onde se planeja construir um local de memória. Em Buenos Aires também foram assinaladas “A cova”, na Base Aérea de Mar del Plata, a Base Naval Mar del Plata; "Monte Peloni", Regimento da Cavalaria de Atiradores Blindados 2, em Olavarría, onde se planeja um sítio de memórias; e "La Cacha", ex-unidade penitenciária 8, cárcere.(...)"
bj
Valeu pelas dicas pai!
ResponderExcluirGalera foi mal pela demora. A guerra pelo pc aqui ta tensa. hehahhahahahhahaha