terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
La Paz - 19º dia - 21/01
-------------------------------21/01 – La Paz--------------------------------------
///Se tivéssemos combinado não teríamos conseguido acordar todos praticamente juntos às 8h da manhã. E se tivéssemos combinado, e combinamos, não teríamos acordado às 8h e sim às 18h! De tão exaustos que chegamos da viagem de 5 dias, nossa vontade era de ficar em nossa cápsula de energia, comumente conhecida como cama, por tempo indeterminado até que sentíssemos completamente regenerados. Mas nosso próprio corpo determinou que acordaríamos 8h. Muitas vezes quando se dorme demasiado casado (pelo menos comigo isso acontece) o sono não é tão revigorante como deveria ser. Além disso, o fato de não estarmos completamente acostumados com a altitude e às três horas de fuso horário em relação ao Brasil contribuíram para o despertar matutino.
///O frio que fazia naquela manhã de La Paz e o calor que fazia debaixo das cobertas, somado à preguiça constante pós acordada, que nos acompanhou por toda viagem fez com que o desafio de descer e comprar café da manhã fosse designado ao mais bravo guerreiro, eu! Bem agasalhado como mamãe gostaria que eu estivesse, desci com o objetivo de encontrar uma padaria, mas o que eu encontrei foi muito, muito melhor...
///Praticamente às portas de nosso hotel havia uma linda, tradicional e baratíssima feirinha popular onde você poderia encontrar tudo. Quando eu digo tudo eu não estou exagerando. O mais perto que poderíamos chegar de uma boa comparação seria com a Uruguaiana, mas mais barata e com senhoras descendentes indígenas, com roupas coloridas e fofas trancinhas.
///Eu me senti no paraíso. Empolgado eu não sabia nem para onde ir primeiro. Parei num lugar onde vendia leite, chocolate, pilha e escova de dente e perguntei onde poderia comprar pão. A senhora me indicou uma reta e de olhos brilhando e feliz como uma criança eu andei para lá encontrando de tudo, menos pão. Talvez eu até tivesse passado por pão, mas o colorido do lugar e a atmosfera gostosa podem muito bem ter nublado minha visão. Não importava. Nada importava. Eu só queria continuar andando por ali.
///Mais para frente perguntei novamente sobre pão e me indicaram um lugar diferente. Quando perguntei pela terceira vez e me indicaram um terceiro lugar diferente percebi que deveria prestar mais atenção para possíveis padarias ou algum lugar que vendesse pão. Essa foi uma tarefa dificílima, pois logo na frente outra senhora estendia pelo chão uma inestimável coleção de brinquedos de todos os tipos. De longe aquilo já havia chamado minha atenção, mas quando eu me aproximei eu praticamente caí de joelhos. Dezenas de bonecos do Senhor dos Anéis, muito bem feitos e o melhor: os preços variavam de cerca de 10 a 16 reais. Aragorn, Gandalf, Gimli, Éowyn, Saruman, orcs, todos lá a minha espera. Por mim levaria todos eles, quem precisa de pão quando você tem bonecos do Senhor dos Anéis? Mas por amor a minha vida, lembrei de Anne e decidi continuar meu caminho. Não que eu não tenha comprado, Aragorn e Gandalf iriam morar em Niterói agora.
///Achando que nada mais mágico poderia me acontecer continuei a andar até que finalmente o vi: A poucos metros de mim. Brilhando como um item a ser pego em um jogo de vídeo game, a solução de todos nossos problemas e a compra da permanência de Anne junto de nós (pois ela já pensava em voltar antes da hora): o FEIJÃO! Isso mesmo amigos. Mesmo agora, escrevendo à distância física e temporal do acontecimento não posso deixar de me emocionar com esse reencontro. Nosso preto favorito estava ali, na verdade sempre esteve apenas esperando que nós passássemos por ele. Durante toda viagem, essa seria nossa recompensa por termos chegado tão longe e nossa energia para avançarmos mais.
///Eu tive que me segurar para não perguntar: “Quanto você quer por isso?!?!?!” Oferecendo uma nota de cem dólares. Mas aquele produto raro era barato como tudo ali.
///Agora com bonecos do Senhor dos Anéis e feijão eu realmente não precisava mais de nada. Tudo a partir dali seria supérfluo, mas eu fui enviado numa missão e ainda precisava cumpri-la. Então, quase 40 minutos depois de minha partida eu voltei para o hotel triunfante como César voltava a Roma depois de suas inúmeras conquistas. A primeira coisa que fiz foi mostrar para o Kiko os bonecos e sua reação não poderia ter sido melhor. Ele pulou da cama com os olhos fixos neles, perguntando onde como e por que. Enquanto isso Anne olhava entediada para nosso momento nerd, mas isso não duraria muito. Minha teoria foi que ela sentiu o cheiro do feijão cru, por que de repente ela saltou com um grito de “Feijão!” e arrancou a sacola de minhas mãos para abraçar os saco de feijão e pular na cama com eles parecendo Tio Patinhas em suas montanhas de ouro.
///Quando eu contei as minhas aventuras na exploração daquele novo lugar e mostrei as especiarias que trouxe comigo, imediatamente os outros dois aventureiros se empolgaram de também descer.
///Assim fizemos logo após o delicioso café da manhã. Agora tínhamos outro objetivo: tornar viável o preparo de nosso feijão. Nossa primeira atitude em relação a isso foi conversar com a recepção do hotel e pedir para utilizarmos a cozinha. Surpreso com a proposta, mas prestativo ele liberou a cozinha para nós, mas alertou que não havia panelas que pudéssemos cozinhar. Por isso um de nossos objetivos na minha segunda ida à feira era comprar panelas.
///Kiko e Anne logo ficaram tão maravilhados quanto eu ao caminharem por aquele lugar. Parávamos em todas as barraquinhas para vermos roupas, comida, cereais, brinquedos, tintas e normalmente cada lugar tinha tudo isso, ou boa parte dessas coisas. Passeamos mais um pouco, compramos as panelas e voltamos para o lar.
///Desde La Quiaca tiramos nossas roupas de frio do fundo da mala. Chegando a La Paz foi a vez de tirarmos nossos remédios da mochila. Anne já vinha usando seu estoque pessoal, mas agora que o Kiko sentiu uma forte dor de barriga e passou a viver sua vida de rei, usamos nosso soro e outros remédios para o estômago.
///Com o anarquista debilitado, ficou a cabo meu e da Anne preparar o feijão e o resto do almoço. A cozinha era um pouco assustadora. Em contradição com o arrumadinho e limpo hotel, a cozinha era pequena, escura e suja. Só nosso desejo por feijão nos fez encarar aquela provação. É interessante conhecer o hotel por trás de sua fachada e não duvidaria que os grandes hotéis também fossem assim. Por exemplo, na parede da cozinha havia um ameaçador aviso aos funcionários ameaçando cortar salário caso não cumprissem com suas obrigações.
///Como eu disse essa cozinha era um pouco assustadora:
///Não experimentamos, mas desconfiamos que se tratava apenas de farinha...
/// Enquanto cozinhávamos meu antigo ódio à física voltou com toda a força. A 3.700 metros de altitude, a pressão atmosférica é bem menor. Nós não tínhamos panela de pressão e achamos que, mesmo demorando um pouco mais, o feijão sairia a tempo. Quatro horas depois, com todo o resto da comida já pronto, nosso feijão ainda estava duro, apesar de seu caldinho ser delicioso. Então tivemos que tomar uma decisão difícil: almoçaríamos (às 18h da noite) só com o caldo do feijão.
///Apesar do delicioso caldo, a frustração foi inevitável. A saga do feijão não seria vencida tão facilmente. Nosso desejo desesperado foi novamente adiado para uma data imprevista. O desapontamento foi tamanho que Anne comeu pouco.
///Relativamente frustrados, ainda cansados, alguns de nós debilitados e a friaca que fazia na noite de La Paz nos convenceu que não sairíamos para conhecer a noite de La Paz e tão cedo quanto acordamos, fomos dormir.
///Esse final de dia não apagou a magia do início. Continuei feliz e ansioso pelos demais dias em La Paz.
Assinar:
Postar comentários (Atom)







Nenhum comentário:
Postar um comentário