terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Córdoba - San Salvador de Jujuy - 15º dia - 17/01
------------------------------------15º dia 17/02-------------------------------------
///Mais uma vez a responsabilidade de acordar todos cedo ficou por minha conta. Calculando o horário de saída do nosso ônibus (8h da manhã, não havia horário anterior) e levando em conta o tempo da preguiça, programei meu despertador e quando deu a hora comecei o trabalho de acordar a todos.
///Passados cerca de trinta minutos nossos bravos guerreiros já haviam despertado e arrumávamos nossas bagagens quando descobrimos que, devido ao fuso horário argentino acordei todo mundo uma hora mais cedo do que havíamos combinado. Recuei alguns passos para longe da Anne enquanto balbucia algo como “É melhor para a gente! Poderemos fazer tudo com mais calma!”. São nessas horas que eu percebo que ela me ama de verdade, por só isso explica o fato dela não ter me esganado ali.
///Passado essa confusão partimos para a rodoviária. Nosso destino agora era San Salvador de Jujuy, capital da província nortista de Jujuy. Essa cidade não estava inicialmente em nosso roteiro, que previa que descansaríamos na cidade fronteiriça de La Quiaca, mas assim que chegamos a Córdoba tentamos comprar passagem para lá e as melhores informações que ouvíamos era “Não fazemos viagens para La Quiaca.” e as piores eram: “O que é La Quiaca?”. Portanto nos restou Jujuy, que ficava a cerca de cinco horas de La Quiaca, onde atravessaríamos a fronteira e pegaríamos o trem na cidade boliviana de Villazón. Esse era o plano.
///Nosso ônibus partiu para a maior viagem até o momento (previsão de 12 horas). Margeamos a serra de Córdoba, o que me deu certa tristeza de não ter aproveitado seu potencial natural em termos de turismo. Até agora exploramos apenas a parte urbana dessa viagem e acho que sou eu quem mais sente falta de uma boa caminhada no meio da natureza. Jujuy foi sempre muito bem recomendada, mas sabíamos que ali deveria ser apenas uma cidade dormitório para nós.
///Passei duas postagens inteiras com uma escassez de foto que me incomodou profundamente. A partir de agora, noventa por cento das nossas fotos serão da janela de algum meio de transporte, mas vocês vão ter que aturar, pois eu vou colocar todas! Vou fazer isso não somente devido à minha abstinência em relação à fotografia, como também para transmitir um pouquinho do que foi para nós viajar por doze horas, tendo a maior diversão em olhar pela janela e observar a mudança de paisagem.
///A estrada seguia numa reta sem fim. Ao seu lado a paisagem foi ficando cada vez mais seca e, uma vez ou outra, passávamos por uma pequena cidade, algumas até bem arrumadinhas. As referências políticas ficaram pelo caminho conforme rumávamos para o norte, a impressão que tínhamos e que se confirmou mais tarde, era de que o poder de Buenos Aires pouco se irradiava para aquela região.
As horas foram passando e uma nova ansiedade crescia em nós três: a aproximação da Bolívia. O fim daquele calor, a subida dos Andes e os efeitos da altitude, o povo diferente, o desconhecido em relação à organização das cidades, do campo e etc. Podemos dizer que começaríamos a segunda parte de nossa viagem.
Quando se fica doze horas dentro de um ônibus, a paisagem, por mais bela que seja, vira entediante até mesmo para mim que fui descrito por Anne como “um turista clássico” (o que puxei do meu pai. O dia que tiver uma bermuda florida e uma máquina de fotografia poderosa, chegarei ao nível dele). E quando duas mentes criativas e brilhantes, como a minha e a do Kiko se encontram entediadas, a consequência é uma inevitável produção intelectual sem precedentes na história. Percebemos então como os grandes escritores produzem suas obras.
Esse brilhante texto surgiu de uma brincadeira que consistia em continuar a história do amigo usando apenas três palavras. O resultado vocês Lêem agora:
_____________________________________________________________Era Uma Vez_________________________________
///Um homem gordo e feio correndo por uma estrada escura e lamacenta. Suas banhas já pingavam suor pelas cavidades. Feridas mostravam que fora atacado por uma espécie de roedor monstruoso. Sangrava, mas ainda assim conseguia manter-se correndo motivado apenas pelo amor ao presunto que esperava em sua geladeira.______________________________________
///Ouviu se aproximando um bater de cascos que indicava que centauros bêbados estavam na região. Apesar da escuridão era perigoso andar em uma área com roedores e outras criaturas selvagens.____________________
///Então um velho que cruzava a estrada lhe perguntou: _______________
"E aí, balofo, Por que está correndo?" com um sorriso.________________
"Corro por presunto!"_____________________________________
"Não sabia que gordo corria. Por que não vai de cavalo?" ______________
"Os roedores comeram" ____________________________________
"E os centauros?" _______________________________________
"Estão todos bêbados!" ___________________________________
///Então o velho ofereceu uma bebida cheirando à queijo e disse que era uma poção para seus ferimentos. Entretanto, ao bebê-la, ele sentiu que seu corpo começou a criar pelos e diminuir progressivamente. Orelhas e dentes de rato cresceram e em seguida o homem transformou-se em um roedor._______
///O velho sumiu na escuridão. Um centauro embriagado apareceu galopando e exclamou surpreso:
"Que porra é essa?" ________________________
"Um filho de Deus me abençoou com esse corpo!"__________________
"Matamos pragas como tu!" Disse o bebum, pisando torto. _________
"Então fudeu!" _____________________________________
Repentinamente, uma ninhada de elfos apareceu. __________________
"Não podes matá-lo centauro tonto!" ________________________
"Nem torturar?" Perguntou o bêbado. __________________________
"Não, seria desperdício de esforço. Ele é feio e gordo" insistiram os elfos. __
"Então o que eu faço?" ___________________________________
"Ajude-o a recuperar-se." __________________________________
Enquanto discutiam o gordo rato fugiu de medo: "Só queria presunto!” _____
Mas o centauro decidiu ajudar o rato seguindo seu rastro. Alguns metro depois viu uma cena assustadora: Cinco orcs rodeavam o pequeno e gordo rato.________________________________________________
"Dã! Comida!" Disse o mais fedorento. _________________________
"Vamos comê-lo!" Disse o outro. _____________________________
"Só se vencerem-me!" Interveio o centauro ainda bêbado. _____________
"Dã!?" Questionou sabiamente o líder orc, e seus comandados atacaram. ____
///O centauro lançou a garrafa de rum que bebia sobre o orc fedorento, mas errou acertando o pobre rato gordo, que acabou bebendo todo o rum.
///Surpreendentemente, rum era o antídoto e o gordo voltou à forma humana completamente nu. Um efeito colateral: que agora ele podia crescer pelos quando ele quisesse.___________________________________
///Os ors atacaram e o centauro acabou morrendo protegendo o gordo nu e levando os quatro orcs malditos com ele pro inferno.
///Nu, cansado e seguido pelo chefe dos orcs, o famoso Dhaãmn, por vingança à seus súditos queridos.
///Avistou o velho filho de Deus que disse: ____________________
"Aprendeu a lição?" _______________________________________
///O orc sem entender nada decapitou o velho. ____________________
"Você matou meu conhecido!" Gritou o gordo. ____________________
"Não foi de propósito!" Disse constrangido o orc, desculpando-se. ______
///Então o gordo colocou sua mão sobre a cabeça do líder dos ors fazendo crescer cabelos em partes íntimas. Agradecido o orc presenteou-lhe com sua carne de presunto. ________________________________
///Repentinamente, uma flecha acertou o orc. O elfo mostrou-se vindo da escuridão. Ferido, o orc caiu de joelhos e foi executado pelo elfo. Desesperado com a matança, o gordo gritou: ______________________________
"Vão pro caraho! Só quero comer presunto!" ____________________
///E correu o mais rápido que pôde enquanto segurava seu presunto. No caminho pensou a única forma de fugir dali, era através dos roedores monstruosos, que habitavam o norte da estrada. Fez uma pausa e seus pêlos cresceram podendo disfarçar-se de rato. Então segurou o presunto e guinchou como um rato correndo de medo. Dezenas roedores viram ele e o carregaram como seu líder. Um exército de homens esperaram na estrada para enfrentar os ratos e uma grande guerra se proximava.
Os elfos apareceram prontos para lutar do outro lado e 5.000 orcs os cercavam, domando pôneis malditos.
“Esperem!" Disse o gordo "Precisamos amar o próximo e Deus. Estive com o santo velho que, antes de perder a cabeça, ensinou-me: O presunto é melhor que queijo, é o corpo do porco e de Deus. Amem ratos, não porcos... Ah! Esqueçam tudo.” ________________________________________
E todas as raças guerrearam até a morte, ignorando o messias presuntinho. Milhares morreram. _______________________________________
Conta-se que o fedor pestilento que até hoje paira na estrada é do presunto, que ninguém pôs na geladeira. _____________________________________________________________________________
FIM ____________________________________________________
///Terminado este conto épico penso que, na verdade, fomos iluminados pelos espíritos da região e apenas relatamos uma história que de fato aconteceu. E por termos revelado isto ao mundo, mechemos com forças poderosas que aparentemente se irritaram conosco. O fato é que, da janela frontal do segundo andar do ônibus vimos que a vizinha se a tormenta... digo.. digo... a tormenta se avizinha.
///Isso mesmo. No horizonte se anunciava uma tempestade de proporções épicas. Raios caiam a todo o momento e nós rumávamos diretamente para seu coração negro. Sem pestanejar o ônibus prosseguiu rumo às terras escuras do norte e não demorou a sermos abraçados pelos braços cruéis das nuvens de tempestade.
(essas foram minhas tentativas patéticas de tirar foto dos raios que caiam.)
///Para nós que passamos quinze dias pegando apenas um dia de pouca chuva, o universo resolveu compensar e derramou para nós o esperado para o século inteiro (como costumam dizer as autoridades quando há uma tragédia envolvendo chuvas no Rio de Janeiro). Já não dava para ver nada pelas janelas, apenas inúmeros carros parados por preferirem não enfrentar a tormenta. O único que pareciam não enxergar a chuva era o motorista. Talvez embalado pelo mesmo tom épico que narro essa história, ele acreditou que era a missão da sua vida enfrentar aquele dilúvio sem ao menos reduzir a velocidade.
///Eu e Anne já estávamos tensos (enquanto o Kiko viajava alegremente por uma ilha caribenha jogando Trópico no meu computador) e eu começava a considerar a possibilidade de descer e dar um esporro no motorista.
///Não precisou, a vida lhe deu esse esporro. Em algum ponto da estrada, o motorista tentou fazer mais uma ultrapassagem completamente desnecessária e o ônibus sensivelmente perdeu a estabilidade numa poça de água por uma fração de segundo. Depois disso o desembestado motorista segurou a onda e seguiu pianinho o resto da viagem.
///Tempo depois, quando já não havia chuva e seguíamos por uma estrada seca, me virei para Anne e disse: “Você, por acaso, percebeu que o ônibus escorregou?” “Sim” “Que bom...” e voltamos a ficar em silêncio.
///Por sim vencemos a tempestade e agora esperávamos as últimas horas para chegar à Jujuy. Se você já viajou por um longo tempo sabe que as últimas horas são as mais demoradas. Transcorrido o que pareceu para nós mais meia viagem, chegamos à San Salvador de Jujuy às duas horas da manhã.
///O choque cultural não podia ter sido maior. O norte/noroeste da Argentina não é Bolívia por um acidente histórico. A maioria da população já carregava os traços inconfundíveis da descendência direta com povos indígenas. E a cidade nos pareceu mais desorganizada do que estávamos acostumados em nossa viagem até Córdoba.
///Além disso, já tivemos um pequeno estresse quando fomos pegar nossas malas no ônibus e o cara que as descia falou para o Kiko esticando as mãos: “Propina!” O Kiko ignorou (provavelmente de forma não proposital) e pegou sua mochila. Depois foi a minha vez: “Propina!” “Que?!” “Propina!” (O.o) “Como assim?!” Eu pensei e peguei minha mochila. Na vez da Anne ele foi mais radical. Segurou a mochila dela e exigiu “Propina” antes de entrega-la. Ele provavelmente pensou que seria mais fácil intimidar uma menina baixinha e fofinha... Tadinho... Provocar a Anne cansada de uma viagem longa é correr risco de vida.
///Com fome procuramos um pequeno boteco que vendia um sanduiche de milanesa. Para Anne não poderia ter tido mais azar. Não só seu sanduba veio com um tempero que ela detesta como também, uma moradora local completamente bêbada, cismou com ela e passou a abraça-la constantemente, só parando que eu a desgrudei da minha namorada. Tenho certeza que ela achou que Anne, moreninha, de cabelo liso e preto, fosse uma irmã perdida.
///Depois de batermos boca com aquele idiota fomos pegar um taxi e lá vem mais extorsão... Sabíamos que o albergue que dormiríamos era perto e quando o taxista anunciou de primeira que cobraria 50 pesos nós rimos e fomos para a rua ao lado onde pegamos um taxi que nos levou por 5 pesos.
///Por fim chegamos ao que pareceu um confortável albergue.... Não sabemos... Dormimos direto.
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Sensacional, Nan. Me diverti muito com o relato. Parece que quanto menor o movimento externo, mais sua mente se movimenta. A viagem se transfere do exterior para o interior ganhando dinamismo, humor e criatividade. Amei a sequência de fotos da tempestade se aproximando e, por fim despencando sobre o ônibus. As imagens ganhando tons cinza, cada vez mais escuros, e se distorcendo por efeito das gotas escorrendo no vidro molhado, são maravilhosas.
ResponderExcluirbj