quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Buenos Aires - 12º dia - 14/01

----------------------------------12º dia 14/01--------------------------------- ///Chegamos ao último dia na bela Buenos Aires e a primeira coisa que fizemos foi o check out no albergue. Não dormiríamos mais naquele albergue, mas também não sairíamos imediatamente, pois a passagem do nosso ônibus estava comprada para uma hora da madrugada. Felizmente pudemos deixar nossas bagagens em um quarto trancado e nos permitiram tomar banho mesmo depois de termos oficialmente saído. ///O albergue foi bem bom. Apesar dos inconvenientes que naturalmente surgem em um lugar muito cheio (estávamos mal acostumados com Montevideo), a hospedagem nos abrigou bem, com bons funcionários e o fato de termos ficado com um quarto só para a gente contribuiu muito para a nossa avaliação positiva. ///Sentiremos saudade também de um casal de mãe e filho muito bonitinhos. Esses dois gatos dormiram a maior parte do tempo, mas quando o filho fazia alguma besteira, era no nosso quarto que ele se escondia com nosso consentimento.
///Terminado o almoço tínhamos algo muito importante para resolver: onde assistiríamos ao show de Tango que fecharia nossa estadia aqui com chave de ouro. Não sabíamos onde assistiríamos ao espetáculo, mas sabíamos que para isso precisávamos ir a San Telmo. ///San Telmo não é só o bairro onde se concentra os principais e mais tradicionais casas de Tango da cidade, é um lugar gostoso de passear a pé, apesar das ladeiras. (Para quem já andou em Minas, Salvador e subiu a rampa para casa da Anne no Fonseca, essas ladeiras são fichinha). As ruas são de paralelepípedo e os prédios não passam dos três andares. Em vários pontos há murais em referência ao tango.
(Nesse especificamente, eu e Anne só vimos que tinha um mais novo ao lado depois de ter tirado a foto. Como para mobiliza-la para pousar para uma foto é difícil, o Kiko ficou com o mural melhor).
///Também passamos em um mercado tradicional do bairro. Não compramos muitas coisas por que já tínhamos almoçado e não sabíamos quanto precisaríamos gastar no Tango, estávamos economizando alguma grana.
///Acabou que não encontramos nenhuma casa de Tango aberta pela região, o que foi uma sorte, porque logo iriamos descobrir que para assistirmos um Tango por ali teríamos que dar um rim cada um (no caso do Kiko um rim e um dedo, afinal seus órgãos estão em baixa no mercado). Encontramos uma agencia de turismo que fazia as reservas. A brasileira que nos atendeu compreendeu nosso estado de mochileiros e conseguiu (entre os espetáculos do circuito mais clássico) um que fosse mais em conta. Com mais em conta entende-se que eles usaram vaselina. O preço saiu 88 dólares para cada um. Se tivéssemos procurado com um pouco mais de calma, poderíamos ter encontrado algum circuito alternativo, mas pagamos pelo nosso desleixo. Pagamos caro, mas logo perceberíamos que valeu a pena. ///Com nosso fim de noite resolvido, voltamos a Plaza de Mayo para fazermos algumas visitas que ficamos devendo da primeira vez: O museu do Cabildo (principal órgão da elite colonial) e a parte de dentro da Casa Rosada. /// O Museu foi interessante, mas a sua importância histórica fica ofuscada por sua arquitetura simples em meio a uma praça com edifícios tão belos.
///Ao chegamos na Casa Rosada vimos uma longa fila de visitantes queimando sobre um forte sol. Na entrada do edifício, um guarda do palácio vestia uma roupa toda desnecessariamente periquitada. “Será que esses são como aqueles soldados ingleses que não podem de forma nenhuma interagir com o público?” Questionou o Kiko sabiamente. Nós três ainda estávamos pensando nisso quando o soldado em questão vu o Kiko se abanando de calor e com um gingado quase carioca disse o equivalente em espanhol para: “Ta quente né maluco?! Qué trocar comigo não? Ééé... Aí tu vai vê o que é calor!”... ///Questão resolvida... Os guardas palacianos da América Latina são muito mais legais! ///Finalmente entramos na Casa Rosada que dentro é amarela.
///Na verdade estávamos no hall de entrada onde havia uma exposição interessante em comemoração ao bicentenário da Revolução de Independência. Presidentes de toda América Latina enviaram quadros de seus heróis nacionais e cada um deles dizia muito politicamente deles próprios. Por exemplo: ///Hugo Chaves enviou o clássico e já esperado Simon Bolívar, pois ele faz sua própria leitura e apropriação do que é o bolivarianismo. Também foi o presidente que mais enviou quadros, o que condiz com sua lógica de unidade com governos “progressistas” e construção da Venezuela como uma liderança alternativa nas Américas.
///Ao contrário disso vimos também o menos presente de todos. Um quadro que parecia ter sido tirado da cozinha do Palácio presidencial e que não me deu menor vontade de tirar uma foto. O presidente Uribe (Colômbia) enviou a foto pintada de algum assassino qualquer só para não dizer que não enviou nada. Pegou o bolo e saiu cedo da festa sem falar com ninguém. ///Bachelet, do Chile, coerente com sua recuperação da memória de Salvador Allende (só da memória, porque na política ela ainda era muuuito diferente) enviou um belo quadro do socialista e nesse eu fiz questão de aparecer. Apesar de todas as minhas críticas pela esquerda, ele será objeto de meu estudo no mestrado e não tem como não ter alguma admiração por esse cara.
///Lugo, do Paraguai, mostrou-se que dentro desse campo que o Chaves chamou de presidentes "progressistas", ele é um dos mais acríticos de todos. Seu quadro foi o do ditador Solano Lopez, que certamente é construindo pelos nacionalistas paraguaios como um herói. Não podemos descartar também uma pequena provocação à Argentina, que na segunda metade do sec XIX, ao lado do Brasil e Uruguai, guerreou contra o Paraguai de Lopez na guerra chamada por eles de Guerra da Tríplice Aliança e por nós de Guerra do Paraguai.
///Evo Morales, ao invés de mandar algum branco barbudo com a bandeira nacional atrás, enviou o quadro de um líder indígena, com a bandeira das nações indígenas atrás. Isso pode ser visto de duas formas e uma não exclui a outra: minha primeira impressão foi que é quase um desrespeito com a cultura indígena, coloca-lo numa representação tão cristã ocidental. Porém, é também interessante o fato dele está quebrando com os padrões normalmente associados a esse tipo de presente.
///Lula também quebrou um pouco com esses padrões e enviou um quadro de “Tiradentes” completamente fora do retrato tradicional. Claro que, assim como em todas as outras, a descrição do personagem é uma descrição completamente acrítica que serve somente como construção de memória, mas pelo menos não era o Duque de Caxias.
///Esta visita, por si só, já valeu a pena. Ainda mais se tratando de dois historiadores e meio. (Calma Anne, dessa vez não estou zuando sua altura, mas sim narrando o fato de você ser mais geografa que historiadora, é ou não é verdade?). ///Agora era hora de visitar o interior da Casa Rosada de fato... O que? 50 minutos de espera? Um anarquista, um comunista e uma preguiçosinha... O centro do poder institucional da Argentina não nos atrai tanto assim.
///Saímos de lá e fomos andar pela charmosa Avenida de Mayo. Bonita por si só, ela também apresenta muitas alternativa de uma lazer digamos acadêmico-intelectual-gastronômico e o melhor de todos é de fato o Café Tortoni.
///O equivalente deles à nossa Confeitaria Colombo, nesse café sentaram-se os intelectuais mais importantes da história de Buenos Aires no século XIX e início do séc. XX. E agora abrigaria os intelectuais mais importantes do nosso século: Anne, Kiko e Renan. Bom... Talvez não os mais importantes e certamente com bem menos grana que os do passado, mas nós não poderíamos deixar de tomar uma água, uma café e comer um alfajor ali dentro.
Vocês acham que a batalha do Kiko contra o Su Do Ku havia sido abandonada? Vocês não conhecem esse bravo guerreiro anarquista. Ele simplesmente abandonou aquele adversário indigno que foi enfrentar toda uma legião deles. Comprou numa banca um livro com centenas desses joguinhos chatos e prometeu acabar com eles um por um.
///Voltamos ao albergue, tomamos banho, nos arrumamos e partimos para o elegante espetáculo de Tango. Como não podíamos ficar pegando nossas bagagens a todo momento no armário onde estavam guardadas, saímos com o essencial: Uma mochila pesada com um lap top e roupas sujas, um saco de mais roupas sujas e várias mochilas penduradas pelo corpo. Anne, a mais bem arrumada trajava uma calça jeans, tênis e essa blusa das fotos que eu não sei descrever. O Kiko também não ficou para trás, com sua camisa social uma bermuda que é meio calça e sua tradicional boina (exigente como sempre em relação aos serviços oferecidos, ele logo reclamou que ninguém ofereceu para pegar ser paletó e chapéu). Eu, mais simples porém impecável, vestia All Star, camisa que comprei em Colônia Uruguai e uma calça jeans rasgada (não que eu tenha uma que não seja). ///Fomos ao Teatro Porteño, bem no meio da 9 Julio. Anne, que já havia vindo à Buenos Aires e assistiu um espetáculo em um lugar mais tradicional em San Telmo, conseguiu apresentar algumas críticas como: O lugar grande demais não apresenta uma áurea intimista e aconchegante entre outras coisas. Apesar disso ela amou o show. Já eu e Kiko ficamos simplesmente de boca aberta. Kiko resumiu dizendo: “Eu normalmente durmo nesse tipo de espetáculo, mas dessa vez não consegui”. Eu finalmente entendi a piada do Simpsons na qual o dançarino, depois de “maltratar” a mulher das maneiras mais bizarras possíveis, jogando para o alto, girando e quicando, diz à sua parceira: “Agora você está esperando um filho meu”. É exatamente essa a impressão que nos dá. Nossos US$88,00 pareceram fichinhas diante de um encerramento desses.
///Assim acabou nossos longos dias em Buenos Aires, capital do país que nos desperta amor e ódio. Nossa avaliação não poderia ser mais que positiva. Qualquer perrengue, contra tempo, etc foram completamente nublados pela área mágica que a cidade parece transmitir. Tem um pouco de nostalgia, glamur, luta, beleza e sujeira que também não pode faltar numa metrópole. Andar por suas ruas é se surpreender a cada segundo com a arquitetura ousada dos edifícios, que parecem que foram pintados, ao invés de construídos.
Ainda assim, os sinais da crise são evidentes, ainda mais para Anne que esteve aqui a não tanto tempo assim. A miséria, que como em Montevideo sempre ficou afastada, está tomando as ruas cada vez mais. Os preços estão aumentando absurdamente, tanto é que nós pegamos o metrô tendo um aumento de mais de 100% (o que levou à uma onde de protestos mais para frente). O governo ainda goza de popularidade, como qualquer governo peronista vai gozar na Argentina, mas até quanto se sustentaram ninguém sabe. Buenos Aires deixará saudades, mas ainda temos muita Argentina pela frente.

Um comentário:

  1. Como conseguiram fotografar o espetáculo? Numa das casas em que eu a Rô fomos (Senhor Tango), me fiz de desentendido e fotografei. dei uma de brasileiro malandro e me dei mal. Em poucos minutos um dos canhões de luz foi dirigido ao local onde estávamos e dois seguranças mal encarados exigiram que parasse de fotografar. Nesse lugar - típico da grandiosidade produzida para turistas - o espetáculo incluiu acrobacias mirabolantes, voos de dançarinos sobre a platéia e cavalgadas (cavalos mesmo). Não há como negar a beleza, mas fiquei mais impressionado com o espetáculo numa casa menor. Do jeito mais intimista ao qual a Anne se referiu.

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