domingo, 12 de fevereiro de 2012

Meio do Nada - Oruro - La Paz - 18º dia - 20/01

18º dia - 20/02 ///Eu estava na Estação das Barcas Rio-Niterói e a barca já estava saindo. Então eu corri e pulei, alcançando a embarcação a tempo. Lá dentro havia um homem e uma mulher que pareciam ser pessoas importantes das Barcas e começamos a conversar sobre a quantidade de tubarões na água, quando a mulher de repente falou com o cara: “Você liberou o trem sem ninguém dentro?!” “Sim”, respondeu ele nervoso. “Renan, nós vamos encostar a barca e você vai de carro avisar do trem.” “Mas eu não sei onde é.” Eu disse. “A gente vai te explicando.” ///Então quando a barca encostou-se à margem eu saltei e peguei um belo carro conversível amarelo. Eu não tenho carteiro, mas sempre que vou ao fliperama gosto de jogar com a marcha no manual, não deveria ser diferente. Acelerei e o motor roncou alto quando eu disparei pelas ruas largas de uma grande cidade americana até que... acordei. ///Ainda assustado com aquilo olhei para a TV do trem e vi um filme onde um carro disparava em alta velocidade. “Esse cara está indo avisar que tem um trem desgovernado?” eu perguntei à Anne. “Está sim”. Caramba! Eu tenho poder de entrar nos filmes! Mas quando eu disse isso para Anne ela respondeu algo como: “Poxa, legal”. Nem todos compreendem. ///Nem todos, mas o Kiko sabe bem como é. Quando algumas crianças gritaram no filme, ele acordou e perguntou se aquelas crianças tinham gritado antes, porque ele estava sonhando com isso. Será que não éramos nós com super poderes e sim o filme que era mágico? ///Despertei por completo e só então me toquei que siiim... Eles puseram um filme de trem desgovernado na viagem de trem. Quando no dia anterior eles puseram um filme de epidemia mundial que se espalha principalmente em transporte públicos, pensei que foi uma infeliz coincidência, mas agora percebi que não, era filha da putagem mesmo. Aqui está uma foto do funcionário responsável pelos filmes:
///Nada que eu escrevesse aqui poderia lhes dar a ideia de o quanto foi cansativa essa viagem. No máximo se eu escrevesse "trem" dez ml vezes e obrigasse vocês a lerem todas as palavras até o final, aí só assim vocês poderiam ter uma ideia vaga de como estávamos querendo pular fora daquele maldito transporte. Apesar disso enfim nos aproximávamos de Oruro. Ao nos aproximarmos passamos por um lindo lago com aguas tão paradas que se tornou um espelho, nos proporcionando essa incomum visão.
///Durante a viagem, nós decidimos que não ficaríamos em Oruro, pois não aguentávamos mais ficarmos algumas horas numa cidade e ter que viajar no dia seguinte. Queríamos chegar logo à La Paz e nos estabelecermos. Entrando em Oruro percebemos que essa foi a decisão mais acertada. Mesmo se tratando da capital de uma Província a cidade parecia abandonada. Abandonada não de pessoas, mas do poder público.
///Sentimos que estávamos conhecendo agora uma cidade boliviana. Villazón era muito pequena e por se tratar de fronteira tem aquela mistureba interessante. Mas Oruro não. Era uma capital e ficava apenas a três horas de La Paz. A pobreza generalizada também nos chamou a atenção. Não que não conhecêssemos pobreza em nossa própria terra, mas aqui era diferente em termos numéricos, “qualitativos” e espacial. Esta seria uma longa reflexão e mesmo assim não me sentiria capaz de fazê-la de forma satisfatória. É o tipo de coisa que você precisa ver para entender. Mesmo estando a menos de um dia na Bolívia, esta já se tornou uma experiência inestimável e que não poderia deixar de recomendar a todos.
///A rodoviária é uma atração à parte. Ao lado dos belos ônibus de turismo ficam várias pessoas te chamando para entrar e quase o pegando pela mão. Eles gritavam as cidades de destino parecendo nossas vãs passando pelo ponto de ônibus: “CentroBarcasNiterói!”. Aqui a maioria dos ônibus partiam para La Paz e o chamados das pessoas gritando para você comprar com eles soava quase musicalmente algo parecido com: “Lapassalapassalapassalapassa!”. ///Um morador local já havia nos dito que muitos acidentes de ônibus na Bolívia eram causados por motoristas bêbados. Assustador, mas até aí tudo bem. O que nos deixou realmente preocupados foi ver um aviso formal, em um quadro da rodoviária recomendando verificarmos a sobriedade do motorista. Então essa merda é séria!
///Outra coisa no mínimo curiosa que aconteceu foi quando fomos ao caixa eletrônico próximo da rodoviária. Desde o Uruguai já nos assustávamos com os caixas eletrônicos que engoliam nosso cartão inteiro e ficava com ele até o final da transação, mas esse aqui de Oruro se superou. O caixa não só engoliu o cartão, como fez isso devagarinho e fazendo um barulho de trituração desesperador. Não consegui sacar dinheiro, mas meu cartão ficou inteiro pelo menos. Em outro caixa eletrônico não foi com o cartão que fiquei preocupado, pois no caixa eletrônico havia uma mancha que se parecia muito com sangue. Ri da situação, até porque chorar não iria ajudar e saímos dali. ///Por fim, após alguns testes simples de sobriedade, entramos no ônibus e partimos para La Paz. Ainda em Oruro reparei diversas pequenas praças bonitas em meio a cidade desorganizada (Deve ser o equivalente ao “favela bairro” deles).
///A estrada para La Paz era boa, lisa e bem reta, mas ainda assim bem perigosa. Isso porque só havia uma pista de ida e outra de volta e mesmo estando sóbrio nosso motorista enlouquecido fazia ultrapassagens bizarras e desnecessárias. O pior de tudo era que ele não era o único, portanto mesmo quando ele estava quietinho na dele, outro ônibus ou caminhão aparecia fazendo uma ultrapassagem na contramão.
///Margeando a estrada víamos o longo gasoduto, principal produto da Bolívia e grande ambição do imperialismo brasileiro. Também vimos diversas referências históricas à guerra de Independência como o local onde teoricamente nasceu o exército boliviano e uma homenagem ao aniversário de uma batalha importante.
///Ao lado uma grande obra de duplicação da estrada estava sendo realizada. Ou seja, se tivéssemos vindo aqui um ou dois anos depois, provavelmente não estaria tão tenso cada vez que o motorista ameaçava fazer uma ultrapassagem. ///Outra coisa interessante é que, em todas as placas de obra do governo federal aparecia a imagem do presidente Evo Morales. O que não é surpreendente, pois é característico desses governos que comumente costumamos chamar de chavistas, o personalismo em relação à liderança. A política boliviana foi uma das coisas mais importantes e interessantes dessa viagem na Bolívia e merecerá comentários mais aprofundados nos próximos relatos. Mas o que eu posso adiantar é que reparei que conforme chegávamos mais próximos de La Paz maiores eram as referências populares e oficiais ao Evo e ao seu partido MAS (Movimiento Al Socialismo), mostrando que a cidade é o centro dos movimentos políticos do país.
///Pouco antes de chegarmos passamos por um curioso redemoinho de areia na beira da estrada.
///Então, depois de 24 horas viajando direto e cinco dias desde que deixamos Buenos Aires, chegamos à capital administrativa da Bolívia e centro dos principais movimentos sociais do país: La Paz. A chegada à cidade não poderia ter sido mais interessante e impressionante. Surgindo de repente atrás de uma pequena colina vimos a parte recente da cidade o alto La Paz, surgida nos últimos dez, vinte anos. Nossa primeira impressão a respeito da imensa cidade que rapidamente se aproximava foi de uma imensa favela. Pensei duas vezes antes de escrever isso aqui, para não parecer um idiota de classe média que vive numa bolha no Brasil e não vê a pobreza que mora ao lado. Mas não havia outro jeito de descrever nossa primeira impressão diante daquele conglomerado de casas de tijolos sem reboco e a pobreza visível. Mas não chegava a ser feio. Estava mais para algo curioso e impressionante.
///Uma diferença básica em relação dos lugares pobres que nós conhecemos são as frases pintadas nos muros da cidade. Socialismo é uma palavra usual e conhecida pela maior parte da população. A maioria dessas pinturas diziam o nome do Evo, mas igualmente constante era o MAS. Isso é interessante porque mostra a diferença essencial em relação ao lulismo no Brasil. Hoje, o PT perdeu a força que tinha na década de 80 como o partido dos pobres e da classe trabalhadora. Lula se tornou muito maior que o PT. Aqui na Bolívia, parece que o Evo cresceu junto com o MAS. A maioria dessas referências eram eleitoreiras, mas também havia frases de apoio ao presidente que nada tinham haver com um processo eleitoral.
///Passando pela Alta La Paz, entramos na velha La Paz. O termo correto, na verdade, seria descemos, ou mergulhamos. La Paz ocupa inteiramente um imenso vale rodeado por grandes montanhas. Ali, no meio, vimos alguns prédios um pouco mais altos perdidos na vastidão de casas de tijolos.
///Assim que descemos até La Paz caímos num forte engarrafamento. Com o trânsito lento, louco e a pobreza generalizada eu achei que estava no Rio de Janeiro, até que olhei para cima e vi aquilo: Era uma pintura... Só podia ser. Uma linda montanha de neve se destacava na paisagem urbana de La Paz. Uma mistura maravilhosamente contraditória para o que nós fomos acostumados a acreditar como deve ser o cenário de uma montanha nevada. (algo como Suíça ou EUA). Foi de tirar o fôlego.
///Estávamos em La Paz e não poderia ter sido uma chegada mais emocionante. Nossa exaustão ainda se fazia sentir pelo corpo, mas nossa cabeça foi embriagada pela alegria de estarmos ali. Então Anne faz uma proposta que não poderíamos recusar naquela atual situação: Vamos ficar em um hotel? ///Com a ajuda de um simpático e prestativo taxista encontramos um hotel baratíssimo onde pagaríamos 70 reais cada um, para quatro dias num quarto com TV a cabo e banheiro privativo. E para aumentar anda mais nossa felicidade, Anne encontrou um simpá... bom... esse não era bem simpático... Então um rabugento, mas fofo cachorrinho.
///Assim finalmente pudemos nos jogar numa cama, nos enfiarmos debaixo de dez quilos de cobertores e dormimos...

2 comentários:

  1. La Paz despertou minha curiosidade... Vai entrar pros meus roteiro futuros!!!

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  2. Vai sim! Vale a pena. E acompanhe os outros dias. Fizemos menos do que queríamos, mas valeu a pena.

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