quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
San Salvador de Jujuy - La Quiaca - 16º dia - 18/01
------------------------------16º dia 18/02---------------------------------------
///No dia seguinte acordamos e logo fomos ver algo que não podíamos ter deixado para tão em cima da hora: o trem que pegaríamos na Bolívia e que nos levaria de Villazón à Oruro, próximo a La Paz. Assim que entrei no site da empresa percebi que erramos novamente quanto ao planejamento das grandes viagens. Só saia um trem por dia e não tinha todos os dias. Para piorar descobrimos que certamente não haveria passagens nem para hoje, nem para amanhã, nem mesmo para algum dia dessa semana.
///Está reviravolta em nossos planos iniciais nos deixaram diante da seguinte realidade: Primeiro, teríamos que dormir em La Quiaca, para podermos atravessar a fronteira bem cedo e pegar algum transporte para La Paz o mais cedo possível. E segundo que teríamos que pegar o ônibus na Bolívia que tanto evitamos. A notícia que lemos ainda no Uruguai, com direito a vídeo, de um ônibus de turismo despencando um imenso penhasco numa estrada na Bolívia não ajudava a nos tranquilizar.
///Como se não bastasse isso não sabíamos de nenhum albergue com vagas em La Quiaca... Na verdade não sabíamos de nenhum albergue em La Quiaca. Com as poucas informações que tínhamos sobre a pequena cidade da fronteira imaginávamos algo parecido com aquelas cidades fantasmas dos filmes de velho oeste americano, só que ao invés de um rolo de grama ao vento, passaria um tufo de pelos de llamas.
///O albergue em que estávamos era bonitinho, com alguma imagens legais na parede e Playstation!
///Mas, assim como a própria cidade de Jujuy, não tivemos tempo de conhecer nada. Havíamos muita estrada pela frente e pouca coisa bem planejada. Enfim colocamos novamente nossas mochilas nas costas e partimos, na cara e na coragem, para o desconhecido.
///Enquanto andávamos rumo à rodoviária olhei para o alto e me espantei: Neve! Estava no alto de uma montanha longe e apareceu por entre as casas e não era algo que se diga: nossa que quantidade de neve imensa, parece Himalaia, mas foi a nossa primeira vista da neve.
///Outra coisa interessante foi que já começaram a aparecer figuras “caricatas” de indígenas andinos. Senhoras com traços característicos, longas tranças e roupas muito coloridas. No ônibus havia vendedores e algumas pessoas foram de pé mesmo. Noroeste da Argentina é um negoço a parte.
///Por fim partimos para mais essa longa viagem. Porém, a partir de agora, as imagens que veríamos de nossa janela seria completamente diferente da que vimos até agora. Jujuy fica na base da Cordilheira dos Andes, então desde o inicio fomos presenteados pelos desenhos do maior conjunto de montanhas em extensão do planeta.
///Quando vi que a estrada cortava os vales andinos disse que aquela paisagem montanhosa era algo que estávamos mais acostumados... Não poderia ter estado mais enganado. Nada do que já vimos por aqui poderia ter nos preparado para o que assistimos em primeira mão da janela de nosso ônibus. Não que no Brasil não tenha paisagens naturais belíssimas, mas não tem nada parecido com isso.
///A cada curva era uma surpresa diferente e algo que merecia uma fotografia. Na verdade é quase um crime ser obrigado a bater essas fotos em movimento e de dentro do ônibus. Deveríamos ter descido para ter um contato mais íntimo com esse lugar impressionante.
///Algo que também nos chamou a atenção foram os leitos do rio quase completamente secos, o que indica que essa região passava por uma severa seca, provavelmente comum, mas que iria nos cobrar seus efeitos.
///Para nossa geógrafa de plantão a experiência foi ainda mais impressionante. Anne que não é tão entusiasta como eu no que se diz respeito de ficar grudado na janela babando com qualquer traço interessante da paisagem, não conseguiu tirar o olho do lado de fora. A cada segundo exclamava apontando para formações rochosas interessantes e citando nomes bizarros para o que eu e Kiko apenas chamávamos de pedra. “Tudo que aprendemos na faculdade não vale nada se não viermos aqui olhar pessoalmente. Não tem nada haver!” dizia ela e mandava eu tirar mais fotos: “Vou mandar essas fotos para meu professor!”. Para Anne me pedir para bater uma foto é algo raro que eu não poderia desperdiçar.
///Apesar de nossa ignorância era realmente de ficar boquiaberto ao ver o resultado de milhões de anos de movimentos tectônicos e de acidentes geográficos instantâneos que esculpem as montanhas como um artista natural.
///Infelizmente nenhuma dessas fotos é capaz de descrever um décimo do que foi subir essas montanhas. Só há um jeito de ter a oportunidade de perder o fôlego e venerar respeitosamente essas maravilhas: vindo até aqui.
///A estrada era muito mais tranquila do que poderíamos esperar. Serpenteando entre vales, não passamos em nenhum momento por grandes desfiladeiros. Além das montanhas outras coisas na paisagem nos chamava atenção: cidades no meio do deserto apareciam de repente e sumiam da mesma forma com que apareceu e para nossa alegria e completo êxtase de Anne vimos lhamas pela primeira vez em nossa vida. Assim, de repente, na beira da estrada, uma... manada?... de lhamas pastavam como se não fossem a coisa mais legal do mundo. A partir daí a cada cinco minutos passavam mais um monte, o que não diminuía a surpresa e admiração de Anne por esses animais adoráveis fazendo-a exclamar constantemente “Ai meu deus!” brilhando os olhinhos.
///Quando chegamos à La Quiaca eu já sentia os efeitos da altitude, sem saber que estávamos há 2.800 metros de altura, muito acima do que já tivemos alguma vez na nossa vida. Era fim de tarde e, climatizados dentro do ônibus, fomos surpreendidos pelo forte frio que fazia na pequena cidade. Finalmente o esperado frio!
///Corremos para um lugar de ajuda ao turista e ficamos lá cinco minutos, tempo suficiente para sairmos já sabendo o albergue que dormiríamos e onde poderíamos comprar passagem para o trem de Villazón à Oruro que achávamos já ter se esgotado os boletos.
///Abraçados pelo inesperado frio esperado, com todas as nossas pendências resolvidas rapidamente e andando por uma cidade pequena, mas muito bem organizada e bonita nos sentimos muito melhor do que imaginávamos sentir quando chegássemos ali. Passamos no banco e enquanto esperávamos tiramos do fundo de nossa mala nossas roupas de frio que até agora não haviam visto os caminhos pelo qual passamos.
///Com o moral elevado fomos jantar e para mais uma boa surpresa de todos, a comida era boa (só não foi perfeito porque não tinha feijão).
///Empolgados com o local eu e Kiko decidimos que daríamos um passeio noturno e conhecer as pracinhas que tivessem para conhecer enquanto Anne preferiu ir para o albergue e descansar. Porém, antes de sairmos, precisávamos fazer aquilo que ninguém mais pode fazer por nós e eu fui o primeiro a ir ao banheiro. Voltei assustado e falei para Anne: “Lembra como foi bonito ver a arquitetura lusitana na cidade de Colônia, no Uruguai? Então, eu só não esperava encontrar outra mostra de um design português bem aqui em La Quiaca.” Melhor que descrever eu preparei a seguinte imagem dessa perturbadora situação, como bem descreveu o Kiko, para que vocês também se sintam tão perturbados como nós nos sentimos.
///Passado esse evento que inutilmente tentamos esquecer, saímos com a recomendação da Anne para que tomássemos cuidado. De fato, andamos apenas alguns metros e nos sentimos ameaçados por uma gangue que nos encarou latindo assustadoramente para nós. Não, latindo não foi uma forma pejorativa de falar gritando, de fato eram cachorros e de fato eles não foram com a nossa cara. Nossa sorte é que logo chegou outro cachorro com o qual fizemos amizade assim que chegamos a La Quiaca e que nos reconheceu.
///Depois de tirar essa foto, nosso novo amiguinho resolveu brincar de mordidinhas. O Kiko cada vez mais nervoso com a atitude do totó me pedia ajuda e eu não conseguia parar de rir muito menos ajuda-lo a se librar do cãozinho brincalhão que nesse momento segurava a luva do Kiko.
///Enfim acalmamos no cachorrinho e demos uma pequena volta antes de sentarmos e tomarmos uma Quilmes para nos despedir da Argentina.
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Sensacional! Tudo: a geografia, o sufoco, os imprevistos. Vou logo ler o próximo dia porque fiquei dois dias sem abrir o computador.
ResponderExcluirbj